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Li
o olímpico artigo do embaixador do Canadá para a Folha de domingo, em
que diz que seu país apenas pretende mostrar que as regras internacionais
do comércio que o grupo dos sete –ao qual o Canadá pertence-- determina,
com poderosa influência na OMC, para todo o mundo, devem ser respeitadas
pelo Brasil. Declara
o representante do governo canadense do Partido Liberal, pesadamente
financiado pela subsidiada empresa de aviação Bombardier --recentemente
ganhou concorrência nos Estados Unidos graças a fantástico subsídio
estatal-- que ama o Brasil, mas que não se deve aqui tratar, emocionalmente,
a reação do Canadá em embargar a carne brasileira, apesar de nunca ter
havido um caso de vaca louca no país, mérito que sua nação não pode
ostentar. No
ensejo dessa demonstração de preconceito aristocrático, dada pelo representante
de um dos sete mais ricos países, que dirigem a política econômica do
globo, sem oitiva de nenhum outro, gostaria de observar que não é emocional
lembrar que o GATT, em 1979, convocado em Tóquio pelas grandes nações,
em face do 2º choque do petróleo, definiu uma política de protecionismo,
no comércio internacional, em favor da economia dos grandes países.
Não
é emocional lembrar que a globalização só foi defendida pelas grandes
nações, quando caiu o Muro de Berlim. Não
é emocional lembrar que as reuniões do GATT e depois da OMC, com regras
da OCDE, dirigida pelos países desenvolvidos, sempre foram convocadas
pelas grandes nações
--e nunca por nações emergentes-- e
sempre que os seus interesses maiores poderiam ser prejudicados. Não
é emocional lembrar que as nações desenvolvidas são imensamente protecionistas
nos setores em que não são competitivas (agropecuário, na União Européia;
siderúrgico, nos Estados Unidos sem falar nos severos controles de qualidade
que o Japão adota,
quando não quer importar produtos que possam afetar seus interesses).
Impõem, todavia, às nações emergentes a exigência de que abram seus
mercados, onde elas não são competitivas e as nações desenvolvidas o
são. Não
é emocional lembrar que apesar de as grandes nações serem as grandes
poluidoras do globo, com a utilização de petróleo e derivados, e de
não terem conservado suas florestas, pretendem, em nova rodada, estabelecer
esquema de punição a ser imposto às nações em desenvolvimento, com a
eufemística figura de “dumping ambiental”. Se fosse adotado em nível
internacional o combustível derivado da cana, de tecnologia brasileira,
certamente, seria drasticamente diminuída a poluição no planeta, e o
país alcançaria a independência econômica. As grandes empresas petrolíferas
–nenhuma delas controlada pelos países emergentes-, não se interessam,
todavia, pela cana, sob a alegação de que o preço do petróleo é mais
barato, valendo a pena mandar às favas este tipo de combate à poluição
ambiental. Não
é emocional lembrar que as empresas canadenses no Brasil condenaram
a atitude de seu país que, sem nenhuma prova, embargou a carne brasileira,
prejudicando a imagem da nação no mundo inteiro. Não
é emocional lembrar que, na reunião do Conselho do governo canadense,
segundo noticiaram os jornais, muitos de seus participantes condenaram
a atitude. Não
é emocional dizer que os políticos financiados pela Bombardier é que
decidiram decretar o embargo, por mais que os desmentidos do governo
canadense, no melhor estilo de Goebbels, procurassem demonstrar em contrário.
A própria imprensa do país setentrional, por alguns de seus jornalistas,
criticou a atitude do preconceituoso governo, com visão medieval das
relações entre as nações. Por
fim, é de se lembrar que “civilizado Canadá”, exportador de seqüestradores
tudo fez para libertar seus marginais através de tratado até hoje criticado
no Brasil. Nada
mais justo, portanto, que os brasileiros, que se prezam, em relação,
não ao povo canadense, mas a seu governo, deixem de comprar produtos
de sua nação, buscando outras opções com países amigos e de relacionamento
inteligente e democrático. Diz
o senhor embaixador que admira o Brasil e que é seu amigo. Um país que
tem amigos como o embaixador, não precisa ter inimigos ...
SP., 12/02/2001.
Ives Gandra da Silva Martins
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