Anti-semitismo e anticristianismo

Ives Gandra da Silva Martins
Advogado
 

Recentemente, o Supremo Tribunal Federal decidiu que determinado livro contendo interpretação distorcida do holocausto do povo judaico em mãos de Hitler era anti-semita e racista, considerando que discriminava os judeus, nada obstante muitos terem argumentado que o judaísmo não seria uma raça e que o ordenamento consagra a ampla liberdade de cada autor de manifestar sua opinião, ao interpretar os fatos históricos.

Não pelos fundamentos que os eminentes ministros utilizaram para decidir a matéria levada à suprema corte, estou convencido de que o povo judeu - que só se mantém unido, através dos séculos, por força de sua convicção nos valores e tradições que o conformaram, ao longo do tempo - fez bem de reagir a uma interpretação insólita dos dolorosos episódios representados pela perseguição nazista.

Por atacar os valores islâmicos, determinado autor inglês foi obrigado a pedir proteção governamental e a esconder-se, por ter sido jurado de morte. Sem que esteja de acordo com a reação fundamentalista, não posso deixar de considerar que suas idéias geraram reação dos seguidores de Maomé, que se sentiram profundamente atingidos em suas convicções, pelo descuidado autor.

A Igreja Católica tem sido mais atacada do que judeus e islâmicos. Em relação a ela, todavia, a mídia sempre considera que tais ataques exteriorizam, apenas, a liberdade de expressão.

O cardeal Eugenio Sales, pelas páginas do Jornal do Brasil do dia 19/06, afirmou que há uma evidente reação contrária à Igreja, absolutamente injustificável, relatando, com serenidade e pertinência, como tais ataques se concretizam, na atualidade.

Tem ele razão, na medida em que livros absolutamente sensacionalistas, e com exclusivo apelo comercial, como, por exemplo, esse amontoado de mentiras e calúnias que é o Código da Vinci, assim como artigos, novelas, filmes e outras manifestações buscam desfigurar a imagem de Cristo, da Virgem e dos santos, com o único intuito de jogar por terra todos os valores da civilização cristã, preservados através dos séculos.

O tratamento que se dá ao ''anti-semitismo'' e ao ''anticristianismo'' na imprensa é, indiscutivelmente, paradoxal. Não se admite a discriminação ''anti-semita'' - com o que estou absolutamente de acordo - mas estimula-se a discriminação ''anticristã'', através de todas as formas de expressão, como se os valores que a perfilam devessem ser reformulados, porque, ao estilo do suicida Nietzche, ''Deus teria morrido''. José Lino Nieto, em seu livro A vontade do Poder (Editora Quadrante), observa, entretanto, que a ''morte de Deus'', é, em verdade, a ''morte dos homens''.

E a reação cristã é praticamente nenhuma. Valoriza-se a família gay e desvaloriza-se a família tradicional - única reconhecida pela Constituição, ou seja, formada por um homem e uma mulher (art. 226, § 3º) - como se o fato de os casais constituírem famílias fosse coisa do passado. Valoriza-se a preservação das espécies em extinção, sendo crime atentar contra os embriões de um urso panda, mas defende-se, abertamente, o homicídio uterino de inocentes para conforto da mãe, nada obstante o direito à vida desde a concepção estar garantido pelo caput e pelo parágrafo 2º do art. 5º da Constituição e pelo art. 4º do Pacto de São José, de que o Brasil é signatário.

O ''querer levar vantagem em tudo'' torna a sociedade cada vez mais egoísta e o pisoteio de valores cristãos termina por acarretar um consumismo sem precedentes e um materialismo sem alma. A célebre premissa de Descartes ''penso, logo existo'' é alterada para ''consumo, logo existo''. A própria ética torna-se, em todas as profissões, principalmente nas atividades políticas, artigo raro, anacrônico e que deve ser esquecido.

O interessante, todavia, é que, no contato individual, cada pessoa reconhece que a sociedade está doente, que precisa melhorar, que há necessidade de busca de valores. Mas a ''contaminação coletiva'', que resulta dessa falta de um referencial maior, mina a força necessária e suficiente para uma reação semelhante à do povo judeu, junto à mídia e até perante os tribunais, como ocorreu no episódio objeto da ação apreciada pela suprema corte.

Personagem de Dostoievski, no livro Irmãos Karamazov, declara, com pertinência, que ''se Deus não existe, tudo é permitido'', pois a morte tudo termina. A sociedade atual, que quer negar Deus, vive, nesse triste ambiente de desconfiança, insegurança, egoísmo e desespero, desembocando na violência, nas drogas, nos desvios sexuais, na desesperança, o seu profundo vazio existencial.

Embora viver não seja arte para amadores, é mais fácil viver imbuído de valores cristãos do que sem eles.

Por essa razão, a defesa desses valores deveria ser o caminho natural daqueles que acreditam em Cristo.

Jornal do Brasil, 01 de julho de 2004