Este
último artigo da série "A Crise da Democracia" é dedicado ao povo, que,
teoricamente, é o destinatário dos serviços prestados pelos governantes,
que o representam.
O
povo, todavia, pouca atuação consciente tem, nos destinos dos governos.
Seja nas ditaduras, seja nas democracias.
Nas
democracias, à evidência, há um verniz de atuação, reduzida à participação
na escolha dos governantes, que, todavia, é fantasticamente manipulada
pelos marqueteiros da ocasião.
A
manipulação para a conquista do poder é a característica maior da democracia
de acesso, sendo, o verdadeiro eleitor dos candidatos, seu homem de
comunicação social. A obra do candidato, seu desempenho, sua personalidade,
são quase sempre reconfigurados para melhor, pelo marketing político.
O
povo não manda, nada decide, tudo suporta.
Grande
parte dele não tem condições de julgar o que é verdade e o que é mentira
nas campanhas eleitorais.
Nos
países emergentes, a incapacidade popular é ainda maior e a manipulação
mais fácil.
Nos
países de menor nível cultural ou de menor desenvolvimento, os que controlam
a opinião pública são os que auxiliam aos governantes a governar, independentemente
do povo e quase sempre, como mostrei nos artigos anteriores, "pro domo
sua".
Não
significa, todavia, que o povo não seja manipulado, nas nações mais
desenvolvidos.
As
fortunas que se gastam nas campanhas eleitorais são ainda maiores do
que nos países emergentes e a elite dos grandes grupos empresariais,
sindicais e de interesses corporativos da Administração terminam por
conduzir as eleições não necessariamente para o melhor, mas quase sempre
para o candidato que contratou o melhor publicitário. Quem decide a
eleição, pois, não é o povo, mas o homem da propaganda.
Prometer,
em política, não compromete. Todos os candidatos sabem que seu compromisso
com o programa de campanha é nenhum. Por isto prometem tudo e não cumprem
quase nada. O povo tem consciência de que alguma coisa está errada,
mas deixa-se levar, por falta, talvez, de lideranças autênticas ou de
capacidade de resistir, de agir ou de disponibilizar tempo para tratar
de política.
A
omissão das elites e a permanente incapacidade do povo de distinguir
entre "marketing" e "verdade", além da falta de mecanismos jurídicos
para controle dos detentores no poder, tornam a sociedade, de rigor,
mero instrumento de domínio dos políticos.
Por
esta razão, talvez, é que prestar serviços públicos não seja a primeira
preocupação dos governantes, mas sim a de manter o poder a qualquer
custo, sendo certo que, se houver tempo e se o dinheiro não for totalmente
disperdiçado, algo se fará, de preferência obras de "visibilidade eleitoral",
mais do que de conteúdo cívico.
O
povo, em outras palavras, é apenas um elemento da atuação dos políticos,
para ser manipulado em causa própria, valendo, os programas sociais,
apenas para promovê-los. Estou absolutamente convencido de que o povo
só participará de uma democracia real, no momento em que puder controlar
os governos e os governantes se reconhecerem como seus servidores.
Em
verdade, todos os governantes são apenas e exclusivamente "servidores"
do cidadão. Não são seus senhores feudais.
Na
democracia que idealizo para meu país, o cidadão deveria ser o senhor
absoluto de todos os direitos sobre os governantes e estes, apenas seus
servidores. Quem quisesse, como nas ordens hospitalares da Idade Média,
servir ao povo, deveria abdicar de seus privilégios e ter como meta
o bem da sociedade e não o próprio bem. Caso contrário, seria melhor
continuar, fora da política e do governo, pois o serviço público exige
"sacerdotes" e não "aproveitadores".
Estou convencido de que, na verdadeira Democracia, quem merece o tratamento
de "Sua Excelência" é o cidadão. Não o agente público, quer seja ocupante
de cargo administrativo ou eletivo, eis que sua presença nos quadros
de qualquer dos poderes só se justifica enquanto sirva ao povo, e nunca
quando passe a usufruir do poder como coisa própria, perseguindo inimigos
e privilegiando amigos.
Na
verdadeira Democracia, os direitos individuais deveriam ser garantidos
por governos preocupados na promoção da sociedade. Apenas no dia em
que os cidadãos tiverem consciência de que são mais importantes do qualquer
burocrata ou político, é que poderão implantar o verdadeiro regime democrático.
Até lá, serão apenas "administrados".
Jornal
do Brasil, 10 de fevereiro de 2005