Crise da democracia: o povo

Ives Gandra da Silva Martins*
ivesgandra@academus.pro.br

 

Este último artigo da série "A Crise da Democracia" é dedicado ao povo, que, teoricamente, é o destinatário dos serviços prestados pelos governantes, que o representam.

O povo, todavia, pouca atuação consciente tem, nos destinos dos governos. Seja nas ditaduras, seja nas democracias.

Nas democracias, à evidência, há um verniz de atuação, reduzida à participação na escolha dos governantes, que, todavia, é fantasticamente manipulada pelos marqueteiros da ocasião.

A manipulação para a conquista do poder é a característica maior da democracia de acesso, sendo, o verdadeiro eleitor dos candidatos, seu homem de comunicação social. A obra do candidato, seu desempenho, sua personalidade, são quase sempre reconfigurados para melhor, pelo marketing político.

O povo não manda, nada decide, tudo suporta.

Grande parte dele não tem condições de julgar o que é verdade e o que é mentira nas campanhas eleitorais.

Nos países emergentes, a incapacidade popular é ainda maior e a manipulação mais fácil.

Nos países de menor nível cultural ou de menor desenvolvimento, os que controlam a opinião pública são os que auxiliam aos governantes a governar, independentemente do povo e quase sempre, como mostrei nos artigos anteriores, "pro domo sua".

Não significa, todavia, que o povo não seja manipulado, nas nações mais desenvolvidos.

As fortunas que se gastam nas campanhas eleitorais são ainda maiores do que nos países emergentes e a elite dos grandes grupos empresariais, sindicais e de interesses corporativos da Administração terminam por conduzir as eleições não necessariamente para o melhor, mas quase sempre para o candidato que contratou o melhor publicitário. Quem decide a eleição, pois, não é o povo, mas o homem da propaganda.

Prometer, em política, não compromete. Todos os candidatos sabem que seu compromisso com o programa de campanha é nenhum. Por isto prometem tudo e não cumprem quase nada. O povo tem consciência de que alguma coisa está errada, mas deixa-se levar, por falta, talvez, de lideranças autênticas ou de capacidade de resistir, de agir ou de disponibilizar tempo para tratar de política.

A omissão das elites e a permanente incapacidade do povo de distinguir entre "marketing" e "verdade", além da falta de mecanismos jurídicos para controle dos detentores no poder, tornam a sociedade, de rigor, mero instrumento de domínio dos políticos.

Por esta razão, talvez, é que prestar serviços públicos não seja a primeira preocupação dos governantes, mas sim a de manter o poder a qualquer custo, sendo certo que, se houver tempo e se o dinheiro não for totalmente disperdiçado, algo se fará, de preferência obras de "visibilidade eleitoral", mais do que de conteúdo cívico.

O povo, em outras palavras, é apenas um elemento da atuação dos políticos, para ser manipulado em causa própria, valendo, os programas sociais, apenas para promovê-los. Estou absolutamente convencido de que o povo só participará de uma democracia real, no momento em que puder controlar os governos e os governantes se reconhecerem como seus servidores.

Em verdade, todos os governantes são apenas e exclusivamente "servidores" do cidadão. Não são seus senhores feudais.

Na democracia que idealizo para meu país, o cidadão deveria ser o senhor absoluto de todos os direitos sobre os governantes e estes, apenas seus servidores. Quem quisesse, como nas ordens hospitalares da Idade Média, servir ao povo, deveria abdicar de seus privilégios e ter como meta o bem da sociedade e não o próprio bem. Caso contrário, seria melhor continuar, fora da política e do governo, pois o serviço público exige "sacerdotes" e não "aproveitadores".

Estou convencido de que, na verdadeira Democracia, quem merece o tratamento de "Sua Excelência" é o cidadão. Não o agente público, quer seja ocupante de cargo administrativo ou eletivo, eis que sua presença nos quadros de qualquer dos poderes só se justifica enquanto sirva ao povo, e nunca quando passe a usufruir do poder como coisa própria, perseguindo inimigos e privilegiando amigos.

Na verdadeira Democracia, os direitos individuais deveriam ser garantidos por governos preocupados na promoção da sociedade. Apenas no dia em que os cidadãos tiverem consciência de que são mais importantes do qualquer burocrata ou político, é que poderão implantar o verdadeiro regime democrático. Até lá, serão apenas "administrados".

Jornal do Brasil, 10 de fevereiro de 2005