
|
Outro aspecto a conformar o estado mastodôntico é o papel dos burocratas. Os servidores públicos de carreira. Aqueles que entram no serviço público, muitas vezes, vivem sem maior interesse pela sociedade, e pensam apenas em sua aposentadoria para gozar, com folga, o repouso futuro.
Quase sempre oferecem muita resistência a qualquer mudança. Acostumados dentro de determinadas rotinas, a mudança causa-lhes calafrios e são os primeiros a tentar bloqueá-las. Sua concepção é casuística, em que o cargo dá dignidade à pessoa. A grande maioria é honesta, mas atribui à administração pública --que confundem com o poder-- um papel mais relevante do que à própria sociedade. Neste aspecto reside o grande problema. O burocrata pensa que a sociedade está a seu serviço. E, à evidência, seu poder, no tempo, confunde-se com seu direito. Como os políticos passam e os burocratas permanecem, são eles os verdadeiros formuladores das políticas governamentais, principalmente nos países parlamentaristas. Integram
o poder, com que, normalmente, se identificam, e terminam confundindo
seus próprios interesses com aqueles da Nação, em confusão que reduz
a cidadania a expressão inferior. Os governantes, políticos e burocratas, quase sempre agem de comum acordo. E cada alteração de poder, pelos políticos, não corresponde a idêntica alteração por parte dos burocratas, que deixam os quadros funcionais em menor número do que aqueles que nele entram pelas mãos de novas administrações. E os concursados, efetivados e estáveis, não há, sequer, como pensar em afastá-los. Hart, em seu livro Concept of law, explica que, nos Estados Democráticos, as leis são feitas para serem aplicadas a governantes e governados, mas, como são feitas pelos governantes, quase sempre são aplicadas contra os governados e a favor dos governantes. De rigor, é o que ocorre com a burocracia. E a burocracia não profissionalizada, isto é, formada pelos correligionários dos partidos vencedores, é ainda pior, na medida em que tais burocratas só se tornaram burocratas por interesse político e não por vocação funcional. E, neste caso, a identificação com o poder é muito maior. São, em verdade, os verdadeiros senhores da máquina administrativa, nos países onde não há burocracia profissionalizada. O
melhor caminho para reduzir o efeitos nocivos da identificação do burocrata
com o poder reside na denominada ''burocracia profissionalizada'', em
que a carreira funcional e o mérito no seu exercício, assim como a antiguidade,
são que promovem o agente público, levando-o, portanto, a maior cautela
e maior respeito à sociedade. Jornal do Brasil, 04 de dezembro de 2004 |
|
|
Ives
Gandra da Silva Martins*
ivesgandra@academus.pro.br *Professor Emérito da Universidade Mackenzie e da Escola de Comando e Estado Maior do Exército, Presidente do Conselho de Estudos Jurídicos da Federação do Comércio do Estado de São Paulo. |
|