Uma das características do estado mastodôntico da atualidade
é a sua classe política. Quase todos os políticos têm projetos pessoais
e utilizam-se de seus eleitores para realizá-los. A demagogia é a essência
da sua pregação. Já não se importam em ser transparentes ou altruístas,
mas apenas em impressionar bem. A imagem do político não é construída
a partir de sua atuação como homem público, mas aquela que o assessor
de imprensa, o homem da publicidade, denominado marqueteiro da mídia,
constrói.
Nada é tão distante do político atual quanto a imagem dele que os
homens de mídia por ele contratados edificam perante o público e que
deve ser seguida à risca para que tenha viabilidade eleitoral.
Em outras palavras, o eleitor vota não no político como ele é,
mas na imagem dele produzida por especialistas em ilusões. Criam um
herói cinematográfico e vendem esta imagem, como se fosse de um idealista
dedicado à pátria e aos interesses da comunidade.
Uma vez eleito, seu compromisso com o eleitorado deixa de existir
e só o retomará, novamente, nos últimos meses de seu mandato para, novamente
contratando os ''especialistas da ilusão'' - muitas vezes ''especialistas
da mentira''-, venderem sua imagem de dedicado cidadão e agente público
exemplar.
Em qualquer país do mundo democrático e especialmente no Brasil,
os melhores marqueteiros são os que vencem as eleições e são disputados
a peso de ouro.
À evidência, o compromisso do marqueteiro é com sua profissão,
''vender ilusões''; não tem nenhuma vinculação com os ideais dos candidatos
que ''produz''.
Basta estudar a trajetória, por exemplo, de um dos mais bem sucedidos
marqueteiros do país, que elegeu, em um pleito, um típico candidato
da direita e, depois, tendo recebido proposta profissional melhor da
esquerda, elegeu um típico candidato da esquerda.
Por esta razão, é que a democracia, no mundo, é uma singela democracia
de acesso, tanto mais frágil quanto mais o regime vincular-se às soluções
presidenciais e não parlamentares.
É que, no sistema parlamentar de governo, a alternância no poder
é mais rápida e só nele permanece o político consistente. Margareth
Thatcher governou a Inglaterra durante 11 anos e apenas perdeu por ter
acreditado que o aumento de tributação seria irrelevante. O povo reagiu
e ela foi derrotada.
Na democracia de acesso, todavia, o povo é ilu dido pelo político
exclusivamente voltado a projetos pessoais; no exercício de mandato,
é apenas o representante de si mesmo.
No Brasil, o estelionato eleitoral representado pela possibilidade
de troca de partidos - quase todos os candidatos só foram eleitos pelo
acréscimo dos votos de sua legenda - demonstra a absoluta falta de ética
do regime e de cada eleito, que, apropriando-se dos votos dos não eleitos
do seu partido, leva-os para o outro, apenas em função de seu exclusivo
interesse pessoal. A pátria e os eleitores que se danem. A ética que
se dane. O que prevalece é exclusivamente sua ambição pessoal de crescer,
de ter cargos, de ser alguém e exercer o poder pro domo sua. Há de se
convir que esse é um mal necessário da democracia, pois, de tempos em
tempos, deve correr novamente atrás de novos eleitores, mas, para tanto,
conta sempre com os marqueteiros de ocasião.
Estou convencido de que a ditadura é forma dramática de se governar,
sendo quase sempre os ditadores sanguinários, como Hitler, Stalin, Mussolini,
Saddam Hussein, Pinochet ou Fidel Castro. A democracia, entretanto,
está longe do retrato que os políticos da atualidade no mundo inteiro
apresentam - decididamente um péssimo retrato. Ela é apenas menos ruim
que a ditadura.
Jornal
do Brasil, 18 de novembro de 2004.
*
Ives Gandra da Silva Martins, 68, advogado tributarista, professor emérito
da universidade Mackenzie e da Escola de Comando e Estado Maior do Exército,
é presidente do Conselho de Estudos Jurídicos da Federação do Comércio
do Estado de São Paulo.