Ética política em frangalhos

Ives Gandra da Silva Martins*
ivesgandra@academus.pro.br

 

Clóvis Rossi, em artigo intitulado "Patente de Corso" (Folha de S. Paulo, 23/10/05, p. 2), declara que "o mundo político brasileiro sempre foi podre", no que, desgraçadamente, pelo menos nos dias atuais, tem inteira razão.

Nem sempre foi assim, todavia. Conheci Prestes Maia. Entrou e saiu pobre da política. Meu patrono na Academia Paulista de Letras, Campos Salles, apesar de ter sido Presidente da República e de ser de origem abastada, deixou a família em dificuldades. Conheci Senadores e Deputados honestos. Mas, infelizmente, minhas recordações são de um passado mais distante ou de meus estudos da História brasileira.

Na atualidade, as desculpas do Presidente Lula para o "Caixa 2" ou "Mensalão" - para mim é indiferente; os dois são crimes tributários, eleitorais e contra a administração, pois quem financia, aguarda (e, quase sempre, recebe) vantagens futuras - são frágeis. Representam o reconhecimento de que seu partido elegeu os atuais governantes, nas 3 esferas da Federação, com dinheiro ilegal, ignorado nas declarações prestadas à Justiça Eleitoral e à Receita Federal. Seu perdão para os beneficiários - "cometeram erros perdoáveis"- é melancólico, levando-se em conta que vem do chefe da Nação brasileira. Sua tentativa de assegurar a eleição do presidente da Câmara mediante a distribuição de verbas para micro projetos eleitorais dos eleitores conquistados em valores centenas de vezes superiores às verbas efetivamente GASTAS no combate à aftosa - é algo de impossível justificação.

Lamento muito que um presidente, em que não votei, mas em que confiava, tenha descido a este nível de fisiologismo, à frente do governo.

Ele, todavia, não é o único culpado. Infelizmente, uma indiscutível tolerância deletéria assola a maior parte dos partidos, tanto da situação, como da oposição. Quase todos estão aceitando o "esfriamento" do maior escândalo de corrupção jamais visto no país, em todos os tempos, o que leva à suspeita de que, de alguma forma -ainda que não nos níveis petistas -estejam também contaminados por financiamentos de instituições privadas, de olho nas benesses dos contratos oficiais.

Tenho para mim que a origem dos recursos, que abarrotaram os bolsos dos parlamentares flagrados, está mais para "mensalão" do que para "Caixa 2", dadas as características do procedimento revelado - "quantias certas", retiradas pelos "zangões" do Poder junto a bancos em "prazos certos", em período não eleitoral -como o Jornal do Brasil denunciou há mais de 1 ano.

Diante disso, não sem ,razão, durante o governo Lula, o Brasil já caiu ao mais baixo índice, na avaliação internacional, no item "corrupção e ineficiência da máquina administrativa", como demonstrou o Fórum Econômico Mundial.

E, à evidência, com - tantos recursos destinados aos representantes populares, a administração e as políticas públicas teriam que sofrer, como efetivamente ocorreu, no que diz respeito ao combate à aftosa, cujos recursos orçamentários foram contraídos e, com total desídia, verbas ainda menores foram destinadas à prevenção.

Por gastar mal e sem qualquer preocupação com a ética política, não sobrou verba para que o governo fizesse a sua parte, na preservação de uma das principais riquezas do país. A conseqüência foi comprometer, de forma dramática, a capacidade de exportação e a credibilidade do País, em item em que o Brasil sempre foi líder inconteste.

Entristece-me ver, como todos os jornalistas conscientes têm demonstrado, um país descendo a esse nível de aeticidade política, de corrosão institucional. Os representantes do povo se mostram indignos de defender as instituições -salvas graças aos sólidos alicerces conformados na lei suprema. Só nos resta lamentar que sejam atuais, para o Brasil, os versos do poeta: "O mais forte castelo é bem castelo fraco.

Se à antiga gente forte a fraca mal sucede"

Vivemos tempos de costumes políticos em frangalhos...

 

Jornal do Brasil - 03/11/2005

 

* Ives Gandra da Silva Martins, 68, advogado tributarista, professor emérito da universidade Mackenzie e da Escola de Comando e Estado Maior do Exército, é presidente do Conselho de Estudos Jurídicos da Federação do Comércio do Estado de São Paulo.