Sobre idéia de América Latina e suas faces brasileiras

 

Tentando exemplificar a convicção pitagórica conforme a qual os números são portadores de uma mensagem, a Embaixada do Brasil na Romênia, com uma generosidade que se liga de certa maneira também ao destino, nos apresentou, nessa semana, três personalidades excepcionais, dois músicos, pianistas de gabarito internacional, e um grande jurista, poeta e escritor, célebre formador de opinião em seu país de nada menos de 160 milhões de habitantes: os irmãos Martins.

Três é um número que aspira à perfeição, como os três protagonistas unidos pelo mesmo sangue, ávidos por nos orientar, a partir do nosso imaginário saturado de clichês, praias paradisíacas e dançarinas de samba, na direção de uma outra geografia humana, com novos deuses tutelares, marcando através da cultura a solidez e a profundidade de sua reflexão, o caráter universal da criação de sua região tão distante da Europa, mas confundindo-se com a alta performance.

Convidados pelo Embaixador Jeronimo Moscardo e vindos às suas próprias custas numa viagem rápida por Bucareste, Craiova e Cluj, as atividades em que Ives Gandra, João Carlos e José Eduardo Martins protagonizaram não foram outra coisa senão a ilustração concreta do grande esforço romeno e latino-americano de pôr em movimento projetos da diplomacia cultural, definidos com tanta convicção nos seminários dedicados às relações entre a Romênia e a América Latina.

O Ateneu Romeno foi palco do primeiro concerto dos pianistas João Carlos e José Eduardo Martins, repetido depois em Craiova e em Cluj. João Carlos Martins, grande intérprete internacional, foi considerado pelos grande jornais norte-americanos formadores de opinião "New York Times" e "Washington Post", em suas crônicas de especialidade, "o maior intérprete de piano de J. S. Bach de Glenn Gould até hoje", dando razão a Alfred Cortot que, ao escutá-lo tocar aos nove anos de idade, escreveu-lhe uma carta através da qual, profeticamente, previu sua carreira excepcional. Dando concertos no Carnegie Hall ou na Casa Branca, como convidado pessoal de vários presidentes americanos, ele gravou em 21 CDs a obra integral de Bach, com um enorme sucesso de crítica. Depois de uma agressão violenta, ele toca hoje apenas o repertório pianístico para a mão esquerda, tendo oferecido no recital do Ateneu, em 22 de abril, ao lado de seu irmão, José Eduardo Martins, em redução para piano do compositor, sua visão sobre o célebre Concerto de Ravel para a mão esquerda.

José Eduardo Martins, famoso pianista e professor na Universidade de São Paulo, foi aluno da célebre Marguerite Long, é membro de bancas examinadoras da Sorbonne, professor em Cambridge e redator-chefe, desde o início, da revista brasileira de especialidade "Música". Assim como seu irmão, ele é autor de um grande número de CDs, dentre os quais citamos as integrais de J. P. Rameau, Mussorgsky e Debussy, bem como os estudos completos de Skriabin. No Ateneu, seu recital acurado e de uma grande beleza interpretativa incluiu peças para piano de compositores brasileiros, dentre os quais, para o público bem educado na música, nomes como Henrique Oswald, Camargo Guarnieri e Heitor Villa-Lobos não representam uma surpresa. Uma música realmente inspirada, original e cheia de ritmos inesperados, uma amostra de uma música extraordinária, pouco conhecida na Romênia e no mundo, a música erudita brasileira. Com a elegante boa-vontade do Ministério da Cultura, da direção da Filarmônica "George Enescu" e de tantos amigos romenos da música de alta qualidade, o concerto no Ateneu Romeno dos irmãos Martins constituiu-se num evento que marca o curso das harmoniosas relações entre ambos os países, para utilizarmos um conceito do mundo musical a fim de ilustrar os sucessos da diplomacia.

Uma personalidade jurídica de grande envergadura é o terceiro dos irmãos Martins, Ives Gandra da Silva Martins, considerado a mais proeminente figura do Direito das finanças públicas do Brasil, grande advogado e professor universitário de Direito Constitucional, Direito Econômico e Direito Fiscal, ele coordena os cursos de pós-graduação do Centro de Aperfeiçoamento Universitário de São Paulo, bem como simpósios, congressos, ciclos de conferência, ocupando espaço inclusive no mundo das idéias sociológicas, políticas e econômicas, fazendo desses encontros verdadeiros debates dominados pelo pensamento crítico. Autor de numerosos volumes de especialidade, artigos em grandes jornais brasileiros (pois ele é um reconhecido formador de opinião), como também de poesia, ele lançou, por ocasião de sua visita a Bucareste, o volume prefaciado pelo editor Gabril Iosif Chiuzbaian, intitulado "Uma Visão do Mundo Contemporâneo", publicado  pela Editora Continent XXI. Ele propõe nas páginas de seu livro uma reflexão lúcida sobre os dilemas do mundo contemporâneo, sobre a globalização e sobre a renúncia aos valores tradicionais, o aprofundamento das diferenças entre as nações, a falta de preparação política no exercício do poder e muitos outros temas cuja solução ele não acredita seja possível através do instrumental clássico do direito, da economia e da política. Declarado Doutor Honoris Causa da Universidade de Craiova, ele esteve presente também com outro livro, que inclui a tradução de alguns de seus poemas numa antologia publicada pela Editora Didactica.

Monica Grigorescu, in Jornal Curentul , Romênia, 04 de maio de 2001.

                                                       Ives Gandra da Silva Martins
                                                    
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