Todo
o cidadão tem direito a uma dose anual de irritações. Acumulando-as,
durante 365 dias, e, ao final, não mais suportando a pressão, sente
a necessidade de colocá-las para fora, por maior serenidade e paciência
com que se tenha comportado, durante o período.
Como
modesto advogado provinciano, fui, também, acumulando as minhas e resolvi,
neste último artigo para o JB, desventrá-las.
A
primeira delas é o meu inconformismo com o "kit-droga" distribuído pelo
Ministério da Saúde e por ele denominado de "kit-redução de danos".
Nele distribuem-se seringas, agulhas, garrotes, lenços anti-sépticos,
preservativos, copo plástico e água para a mistura de droga, com um
pormenorizado manual de instruções e indicação das melhores partes para
injetar o produto químico escolhido, além de explicações de como se
deve evitar a "overdose", como fazer uso da camisinha e quais são os
cuidados básicos que o drogado deve ter. O Ministério da Saúde, ao incentivar
o "vício asséptico", esclarece que o faz para "proteger" o dependente,
"pensando sempre na sua segurança" (termos do manual).
Confesso
que preferiria que o governo gastasse o dinheiro dos contribuintes em
clínicas e campanhas de re-educação do dependente e não no aperfeiçoamento
das técnicas alimentadoras do vício. No estilo Boris, diria que "isto
é uma vergonha".
Minha
segunda irritação é com a terminologia que vem sendo adotada para defender
o direito de matar inocentes, ou seja, "interrupção da gravidez". Os
que propugnam o homicídio uterino de fetos mal formados -ou bem formados,
se indesejados pelas mães-insistem que o aborto não é uma pena de morte
ao nascituro, mas apenas uma "antecipação do parto" ou uma "interrupção
da gravidez". Que sejam abortistas (nada posso fazer), mas que, pelo
menos, tenham a coragem de dizer que estão matando um ser humano --que
o é, desde a concepção, como declaram o Pacto de São José, a Constituição
brasileira e o Código Civil. Que usem os termos exatos, ou seja "interrupção
da vida" ou "antecipação da morte" e não eufemismos, como "interrupção
da gravidez" ou "antecipação do parto". Irrita-me não terem a coragem
de assumir que são "cultores da morte de inocentes"...
A
terceira irritação me causam as pessoas que entendem que a Igreja --criada
por Cristo e cuja direção foi outorgada a Pedro e seus sucessores--
está submetida não a João Paulo II, mas à "visão superior" de alguns
"católicos", que sabem decidir melhor que o Papa sobre as verdades cristãs.
Tais pessoas se proclamam "católicos" -não o são, porque não aceitam
a primazia pontifícia- e se dizem com o direito de tomar a decisão que
desejarem, mesmo contrária ao magistério da Igreja. À evidência, têm
a liberdade de não aceitar o que os católicos aceitam, mas não têm o
direito de se dizerem "católicos" se sustentam posições antagônicas
à da Igreja Católica. É como se alguém se dissesse jogador de futebol,
com a especialidade de marcar gols com a mão e não com o pé ou com a
cabeça. Em outras palavras, não obstante considerar-se jogador de futebol,
não o seria, segundo as regras da FIFA.
Uma
quarta irritação reside na mania governamental de criar Conselhos de
toda a espécie, para tudo controlar (Ancinav, Conselho Federal de Jornalismo
--felizmente rejeitado--, Conselho de Bioética, Conselho Social etc.),
e dos quais a sociedade, efetivamente, não participa -sabe-se que os
elementos da sociedade civil convidados pelos idealizadores dessas entidades
são apenas os amigos do rei--, o que, portanto, é manifestamente incompatível
com o regime democrático de Direito. De rigor, pretende-se ter o poder
de dirigir a sociedade, não através dos representantes eleitos do povo,
mas apenas de alguns "iluminados", escolhidos por um homem só. Pretende-se,
portanto, implantar, um dirigismo cultural próprio dos modelos totalitários,
como os de Hitler, Stalin ou Fidel Castro. Confesso que estou cansado
de tantas reuniões e conselhos e de poucas ações efetivas, para as quais
não se precisa de Conselhos. Basta o governo querer e agir, desde que
respeite os direitos alheios. A prova inequívoca é que a Economia funciona
bem e não precisa de Conselhos.
Tenho
ainda uma enorme coleção de irritações., mas paro por aqui para não
azedar o fim de ano de meus poucos leitores, desejando, nada obstante
meu inconformismo, um fantástico 2005 para o Brasil, para o seu povo
e para o Governo Lula, na esperança de que se comprometa menos com o
poder e com seus correligionários e mais em servir à nação. Feliz 2005!
Jornal
do Brasil, 30/12/2004
*
Ives Gandra da Silva Martins, 68, advogado tributarista, professor emérito
da universidade Mackenzie e da Escola de Comando e Estado Maior do Exército,
é presidente do Conselho de Estudos Jurídicos da Federação do Comércio
do Estado de São Paulo.