O
triângulo anti-desenvolvimentista, no Brasil, é constituído pelo excesso
de burocracia, excesso de tributos e excesso de juros. Nenhuma economia
mundial suporta tal conjunção letal, nem mesmo a indiscutível capacidade
de empresários e trabalhadores brasileiros de superar as crises.
O Brasil caminha para trás. O PIB negativo de 2003, do primeiro ano
da gestão Lula, contrasta, dramaticamente, com o PIB positivo da Rússia,
China, Índia e México, os três primeiros, acima de 6%.
A
burocracia, dos três males, é o maior. As máquinas e as exigências documentais
multiplicam-se, o governo privilegia correligionários com a indicação
para uma infinidade de cargos, "engordando" as estruturas com novos
ministérios, secretarias e departamentos, preenchidos por seus aliados
não com base no preparo e na competência, mas como forma de compensar
apoios e silêncios quanto a crises, inclusive de conteúdo relacionado
com à integridade moral, como ocorreu no caso Waldomiro. Desde 1992,
pela primeira vez, cresceu o número de servidores públicos,na gestão
de Lula. Reverteu, pois, o governo, a tendência de enxugar a máquina
administrativa esclerosada.
As
medidas provisórias, leis, regulamentos, instruções, portarias sobre
os mais diversos aspectos da vida econômica nacional, crescem, como
cogumelos, gerando uma dificuldade monumental, até mesmo para que o
cidadão possa demonstrar que existe. Para obter senhas e documentos,
fica horas e horas em filas, quando não, dias.
Para
exportar produtos, as exigências burocráticas são infindáveis, razão
pela qual, nada obstante o crescimento das exportações - por força de
um mercado em ascensão no mundo - ficamos escandalosamente abaixo do
México e China, assim como da Índia e da Rússia.
E
o custo operacional suportado pelas empresas para atender às inúmeras
exigências burocráticas é de tal ordem, que, muitas vezes, a informalidade
se apresenta como o único caminho, para evitar o jugo da tirânica, não
razoável e inútil burocracia.
Tem-se
a impressão de que os burocratas são o "grande irmão", do livro de Orwell.
Tudo controlam, tudo vêm, tudo dificultam, tudo atrasam, para que possam
mostrar que eles, burocratas, que vivem às custas dos contribuintes,
são necessários.
Os
tributos são aéticos, imorais e indecentes. Para um país que não presta
serviços públicos adequados - os países que se encontram na mesma situação
têm a carga entre 15 a 20% do PIB - exigir da população o equivalente
a 38%, é, como diria Boris Casoy, um escândalo. Deveriam os governos,
políticos e burocratas, ter vergonha de uma carga deste nível, destinada
em grande parte para pagar privilégios dos detentores do poder, na ativa
e na inatividade.
Tributo
bom, como dizia Everardo Maciel, é tributo simples. Nós tivemos uma
fantástica "contribuição de pioria", com as medidas provisórias 135
(agora, Lei 10.833/04) e 164 que elevaram, consideravelmente, a Cofins
e complicaram, fantasticamente, a forma de seu recolhimento, a demonstrar
que o lema do Erário é "quanto mais complicado, tanto melhor".
Os
juros, muito acima dos juros reais de todos os países - parece que apenas
a Turquia tem juros maiores - poderiam ter sido calibrados a menor,
há algum tempo. Juros elevados destroem as empresas, tiram competitividade
e tornam a dívida do Poder Público, nas três esferas de governos, cada
vez maior, aumentando, e não diminuindo, o risco do país. É que, sem
crescimento econômico e com crescimento da dívida, tem-se o receio de
que, um dia, o país não possa pagá-la.
Se
os nossos políticos e burocratas fossem mais patriotas, certamente,
já estariam pensando, há muito, em reduzir o tamanho da máquina, em
extinguir ministérios, secretarias e repartições, em simplificar as
exigências, em reduzir os privilégios previdenciários e de outra natureza
dos detentores do poder, em aliviar a carga tributária, em diminuir
- embora com margem razoável para remunerar o capital - os juros, em
simplificar o sistema tributário, em não permitir ingresso na burocracia
se não por concursos e não por serem os escolhidos amigos do rei. Instituíram
reforma política, em que a fidelidade partidária, o voto distrital misto,
a redução dos partidos de aluguel e a responsabilização efetiva dos
administradores públicos seriam a tônica dos governos. Enfim, pensariam
em maneiras de servir ao país e não de garantir os votos, nas próximas
eleições, pois só assim o Brasil poderia sair desta estagnação, que
os detentores do poder provocaram.
Se
isto não ocorrer, continuaremos a patinar no medíocre 1% aproximado
do comércio mundial e no desemprego, com redução de competitividade
econômica, interna e externa, caminhando, a passos largos, para o retrocesso.
Burocracia, tributo e juros são um triângulo vicioso, que precisa ser
desfeito, e só o será, quando os governos apostarem mais na sociedade
do que na sua brutal incapacidade de dirigir o país.
Jornal
Valor, 8, 9, 10 de abril de 2004