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Ives
Gandra da Silva Martins
O Brasil tem 175 milhões de habitantes e 8.511.965.000 quilômetros
quadrados de território. É uma das maiores nações agrícolas do mundo
e luta para, nos "fóruns" internacionais, derrubar barreiras
criadas pelos países desenvolvidos à sua produção agropecuária, pois
possui melhor tecnologia, produção e produtividade que as nações européias
e quase todo o mundo. O constituinte, sabiamente, proibiu a reforma agrária sobre
terras produtivas, pois, se estão produzindo, não há por que desapropriá-las
(artigo 185, inciso II, da Constituição federal). O legislador ordinário, com não menor sabedoria, criou mecanismo
para a realização da reforma agrária, no campo impositivo, pelo qual
tributa de forma progressiva a terra improdutiva e de forma regressiva
a terra produtiva, à luz do texto constitucional (artigo 153, § 4.º,
inciso I). Dessa forma, a manutenção de propriedades agrícolas objetivando
a mera valorização imobiliária é um péssimo negócio, pois, com o tempo,
o governo, por meio dos tributos, "desapropria" tais imóveis,
sem gastar absolutamente nada, podendo receber o próprio imóvel em pagamento,
dos contribuintes em atraso, nas execuções judiciais. Aqueles que entendem de agricultura sabem que a maioria das
terras brasileiras em mãos de particulares são produtivas e estão seus
proprietários desempenhando bem a função de manter o País como uma das
principais potências agropecuárias do mundo. São 500 mil empresas e
4,7 milhões de famílias, incluindo os 600 mil assentados pela reforma
agrária. Os Estados Unidos, com extensão territorial maior que o Brasil,
têm apenas 2 milhões de agricultores (tinham 6,8 milhões em 1955) e
a França, o principal país agrícola da União Européia, somente 700 mil
(tinha 2 milhões em 1945). Somados empresas e agricultores, o Brasil tem 5,2 milhões de
agricultores, contra 2 milhões nos Estados Unidos e 700 mil na França,
conforme dados levantados por Xico Graziano no artigo O drama dos com-terra
(6/1, A2). Ora, o MST é movimento - como tenho reiterado em artigos - político,
temeroso de se transformar em agremiação partidária para não ter de
fazer o teste das urnas, onde, pelas pesquisas, seria fragorosamente
derrotado, dado o nível de rejeição que sua atuação inspira na sociedade.
Pretende, todavia, retirar a terra - que é bem inelástico - de quem
a tem e produz, para atribuí-la a seus correligionários, o que vale
dizer: produzir uma reforma agrária em que seriam os seus militantes
os únicos beneficiários. A partir do momento em que transferisse "toda
a terra" para os inscritos em seus quadros, certamente não permitiria
que "futuros sem-terra" não filiados pudessem ter acesso a
qualquer propriedade agrícola no País. O raciocínio é muito simples. Se a população aumenta e a terra,
não, à evidência, no momento em que toda a terra brasileira for conquistada
e entregue aos correligionários do MST, não haverá terra disponível
para os "futuros sem-terra", visto que o bem é inextensível.
Por esta razão é que pressionam, hoje, para obterem terras produtivas,
por meio da violência, do desrespeito à lei e da conivência de autoridades,
as quais, sem respeitarem a independência e harmonia dos poderes, preferem
atacar o Poder Judiciário, que apenas impõe o respeito à Constituição,
segundo a qual "terra produtiva" não pode ser desapropriada
para a reforma agrária. Tais autoridades, a meu ver, deveriam ser responsabilizadas
por porem em risco a estabilidade das instituições e não tomarem as
medidas necessárias para impedir invasões de prédios públicos e propriedades
privadas, invasões essas que configuram um absurdo, inadmissível, antidemocrático
e tirânico desrespeito à lei e à Constituição. O certo é que as críticas dessas autoridades - que foram guindadas
ao poder por serem amigas do presidente, e não por terem sido escolhidas
pelo povo - ao Judiciário só prejudicam o ambiente de harmonia entre
os poderes. Tenho dito que, se o MST deseja a sua ultrapassada reforma agrária
para partilhar o Brasil entre seus correligionários e impedir, no futuro,
que "outros sem-terra" e, no presente, que os "sem-terra
não filiados" sejam proprietários do "butim", que dispute
eleições, que as ganhe, que leve seu projeto ao Congresso e consiga
que o Congresso faça as leis que imagina, pois só aí terá legitimidade
para fazer o que, hoje, é prática delituosa. Se isso acontecer, todavia, o Brasil do futuro será um país
retrógrado, com propriedades agrícolas exclusivamente nas mãos dos despreparados
filiados ao MST. Possivelmente, pela tecnologia pretérita e pela incapacidade
empresarial que têm demonstrado os atuais integrantes desse movimento
já assentados - que se sustentam quase que exclusivamente pelos subsídios
oficiais -, deixaremos de ser a grande pátria agropecuária de hoje para
nos transformarmos em país de atividade agrícola medieval dominado pelos
novos senhores feudais da terra: os integrantes do MST. O Estado
de São Paulo, 21 de janeiro de 2004 Ives
Gandra da Silva Martins, professor emérito das Universidades Mackenzie
e Paulista e da Escola de Comando e Estado-Maior do Exército, é presidente
do Conselho de Estudos Jurídicos da Federação do Comércio do Estado
de São Paulo e do Centro de Extensão Universitária (CEU) |
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