Dois
recentes episódios - o que levou o premier Sharon a matar líder palestino
paraplégico e o que levou o presidente Bush a ridicularizar a mentira
que impingiu ao mundo, para invadir o Iraque, procurando as "armas de
destruição em massa" daquele país, atrás de cortinas e dos móveis de
seu gabinete - demonstram o monumental erro na luta contra este mal
dos séculos XX e XXI, que é o terrorismo.
Em
meu livro Uma visão do mundo contemporâneo, editado pela Pioneira em
1996 e reeditado em Portugal, Rússia e Romênia, já chamava atenção para
os erros praticados no combate ao terrorismo e ao narcotráfico e manifestava
o receio de que atentados de grande monta pudessem ocorrer em várias
partes do mundo, o que, infelizmente, se concretizou com a tragédia
das torres gêmeas, em Nova York, e do dia 11 de março, em Madrid. Continuo
com temor de que o acesso à tecnologia nuclear e a pirataria da informática
possa colocar o mundo à mercê da chantagem terrorista, submetendo cidades
aos efeitos de artefatos nucleares com a possibilidade de detonação
à distância.
A
meu ver, o narcotráfico deve ser combatido em duas frentes: ensinando
a juventude a prezar os valores edificantes para torná-la mais resistente
aos "cantos de sereia" (o que, à evidência não se consegue com a desestruturação
da família, a banalização da violência, a permissividade); e promovendo
o cerco aos criminosos que o praticam. Já o terrorismo exige outra forma
de combate, pois a grande maioria dos terroristas não é mercenária.
Quem está disposto a dar a vida pelo seu tresloucado ideal não pode,
nem deve, ser combatido como um narcotraficante, que vive e se locupleta
com o crime.
Para
os terroristas dos países muçulmanos, seus povos estão sendo tratados
como gente de segunda categoria pelas nações desenvolvidas - principalmente
pelos Estados Unidos e por Israel - desrespeitando seus valores, religiões
e costumes. Por essa razão, são levados a crer que devem libertar seus
povos e, não possuindo armas e exércitos competitivos, consideram que
só através do terror poderão ferir o inimigo.
Para
tal tipo de convicção, aliada a uma fé profunda de que seus valores
são superiores aos valores ocidentais, somente cabe a seus líderes incentivar
tal estratégia, que termina sendo bem sucedida no intento de apavorar
seus inimigos. Somente o diálogo amplo e o reconhecimento das insuficiências
materiais de povos cuja riqueza petrolífera não tem revertido a bem
de sua população, pode começar a reverter esse quadro, mostrando que
o recurso a atos de terror não é o melhor caminho de combate à exploração
econômica e à superioridade bélica ocidental.
A
tática de Bush e Sharon vai em sentido oposto, assemelhando-se àquela
que os nazistas utilizaram durante a 2ª Guerra Mundial, ou seja, responder
a cada atentado com violência maior, matando, também, um considerável
número de inocentes. Causa-me espanto saber que os Estados Unidos -
numa guerra que, como definiu Zapatero, premier espanhol, foi deflagrada
à luz de uma fantástica fraude (existência de armas de destruição em
massa) - já tenham matado quatro vezes mais civis no Iraque - repito
civis - do que o número de vítimas fatais das duas torres !
E
que a pena do Talião (olho por olho, dente por dente), se admissível,
nos primórdios da história narrada hoje gera sempre reação semelhante,
tornando o combate ao terrorismo num círculo vicioso. Ouvi de certo
historiador, em uma das minhas palestras pelo exterior, que Hitler pretendeu
eliminar o povo judaico da mesma forma que Josué, ao conquistar todas
as cidades da terra prometida, eliminara, a fio de espada, seus habitantes,
inclusive mulheres, velhos e crianças, sem levar em conta o incomensurável
espaço de tempo transcorrido entre os tempos primitivos do episódio
bíblico e o século XX, em que os valores da civilização foram aperfeiçoados.
O
certo é que, quanto mais o ódio gerar ódio, as reações forem iguais
às ações e o diálogo abandonado, tanto mais os fundamentalistas crescerão,
pois se alimentarão do ódio que a estratégia acaba gerando.
O
diálogo exige que se discuta em termo diferentes. Ou seja, não há diálogo,
se o exército vencedor (Estados Unidos ou Israel) continuar tratando
os vencidos (iraquianos e palestinos) como gente inculta e de segunda
categoria, por isso não surtirá efeito. Apenas se forem tratados com
a mesma dignidade com que qualquer cidadão do país desenvolvido é tratado,
o diálogo poderá ser frutífero e o terrorismo começará a desaparecer.
Os
líderes mundiais precisam acreditar menos nos "ídolos" e "slogans",
que forjaram, e mais nos valores, que não vivem. Encerro lembrando Karl
Bath: "Quando o céu se esvazia de Deus, a terra se povoa de ídolos",
a que Vittorio Messori acrescenta, em Algumas razões para crer. "E o
culto dos ídolos não é inofensivo, pois os deuses têm sede de sangue
humano".
Jornal
do Brasil, 8 de abril de 2004