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Quando
Fernando Henrique assumiu a presidência da República em 1995, as esperanças
brasileiras de um novo ciclo de desenvolvimento e de consolidação definitiva
da democracia eram fundadas. As promessas de campanha, tais como reformas
tributária, previdenciária, administrativa, política e do Judiciário
pareciam conformar uma nova realidade, em que o Brasil, enfim, despontaria
como uma grande nação. E
as grandes diretrizes de seu governo reduziram-se àquelas promessas,
não se esforçando por implementar nenhuma delas e renegando, em matéria
tributária, tudo o que sugeriu. De
lá para cá, o país se desfigurou, nada obstante a propaganda oficial,
que faz parecer já estar o Brasil entre os países desenvolvidos. A
Colômbia está melhor situada que o Brasil no “ranking” das nações com
credibilidade financeira, como estão o México, o Chile, o Uruguai e
outras nações latino-americanas. Enquanto
a Coréia exportava o mesmo que o Brasil na década de 70 --em que o regime
militar ofertava maiores garantias aos contribuintes que o governo de
FHC-- em 2000 exporta o dobro que o Brasil (mais de 100 bilhões de dólares),
visto que o atual Governo retira competitividade dos produtores brasileiros,
obrigando-os a exportar, junto com os produtos, tributos em cascata,
nada obstante uma insuficiente desoneração ofertada pela Receita Federal. Os
juros, na maioria dos países latino-americanos, são muito menores do
que no Brasil. São particularmente elevados, para o empresário brasileiro,
pois a política impositiva (própria da idade da pedra), leva a tributar
a circulação do dinheiro, com a CPMF e IOF. Enquanto
os outros países procuram preservar os empresários nacionais para contrabalançar
sua presença na economia com a dos investidores estrangeiros, o Brasil
os rotula genericamente de sonegadores, apesar de serem os principais
mantenedores de emprego e do desenvolvimento, suprindo as muitas falhas
da política econômica do Governo. Recebe o Estado brasileiro 33% do
PIB em nível de tributos
--mais do que os Estados Unidos, Japão, Portugal ou Espanha--
mas oferece serviços públicos dignos do Congo, Serra Leoa, Etiópia ou
Ruanda. Por
outro lado, para as privatizações, o BNDES financiou inúmeros investimentos
externos, de tal maneira que o balanço de pagamentos, para os próximos
anos, será dramático, visto que: 1)
as empresas privatizadas para os investidores estrangeiros começarão
a enviar divisas para o exterior; 2)
o estoque de empresas privatizáveis pelo governo será menor, prenunciando
menor entrada de capitais; 3)
à falta de política tributária de exportação, o Brasil continuará sem
competitividade, porque continuará exportando tributos. O “deficit”,
na balança comercial, portanto, crescerá. O
Governo, que não gera empregos, permanece, com uma tresloucada política
de arrecadação, vampiristicamente retirando, de qualquer forma, recursos
do segmento que propicia crescimento e que, apesar dos governos, tem
permitido à nação sobreviver. A
reforma tributária tem sido nitidamente torpedeada pelo próprio Poder,
embora reconheça que o projeto elaborado pelo Congresso Nacional não
era bom. Quanto
à soberania nacional, nada fez o Governo para afastar os “gordos olhos”
de outras nações sobre a Amazônia. Ao contrário, procura destruir o
único pólo de desenvolvimento da região, que é a Zona Franca de Manaus,
sabiamente preservada pelos constituintes até 2013, com uma duvidosa
lei de informática para beneficiar umas poucas empresas multinacionais. Se,
um dia, perdermos a Amazônia –e já tive que defender o direito a soberania
contra aquele de “ingerência” das grandes nações perante professores
alemães que propugnavam sua internacionalização, em Fórum de que participei,
realizado em Bonn, na Alemanha, em 1991— a responsabilidade será deste
governo, pouco interessado em desenvolver a região, cuja área é maior
do que a dos 11 países da Europa Ocidental que formam o núcleo das maiores
potências da União Européia. Por
outro lado, as Leis Complementares 104 e 105 violam, de forma nítida,
a Constituição Federal, atentando contra direitos essenciais dos contribuintes,
que nem o regime militar teve coragem de violentar. Votei
em Fernando Henrique duas vezes. Como seu eleitor, a quem deve ele servir,
como a toda a Nação, tenho o direito de protestar contra um governo
que se desfigura, embora entenda que ainda haja tempo para recompor
o quadro. Para tanto, contudo, haveria de ter consciência de que não
é o Governo que gera o desenvolvimento, mas sim a sociedade, e que a
melhor forma de permitir que a sociedade cresça é eliminar as amarras
burocráticas, implementando as reformas que não fez e completando as
que fez insuficientemente, como a da previdenciária e a administrativa.
E de todas elas, a reforma tributária é a mais importante, desde que
voltada para o desenvolvimento do país e a justiça fiscal. O aumento
de
arrecadação seria uma natural decorrência. Para
tanto, seria necessário ouvir mais os representantes da sociedade e
menos os políticos e burocratas, pois estou convencido de que são aqueles
que geram o progresso e não estes, que salvo honrosas exceções, quase
sempre são “produtores” de atraso, arbítrio, corrupção e “semeadores”
de tirania.
SP.,
29/01/2001. IGSM/mos
Ives Gandra da Silva Martins
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