Viva a 'simplificação'

Ives Gandra da Silva Martins*
ivesgandra@academus.pro.br

         O presidente Lula, quando opositor do presidente Fernando Henrique, nas duas vezes em que foi por ele derrotado, atacou sua forma de governar o país - principalmente ''a não correção da tabela do imposto de renda'', o ''minúsculo'' salário mínimo, os pretendidos ''escândalos'' imputados a seu assistente Eduardo Jorge (nunca se comprovou nada contra ele), a política econômica voltada para o pagamento da dívida e para o benefício do setor financeiro - e exigiu CPI para tudo.

No governo, mudou o discurso, não corrigindo a tabela, mantendo minúscula a correção salarial e afastando as CPIs nos escândalos espoucados com muito mais indícios do que os existentes em relação ao ex-assessor do antigo presidente. Isso sobre adotar política de juros e econômica rigorosamente igual à do período anterior, na área que melhor funciona em seu governo, por estar em mãos competentes, de Pallocci, Rodrigues, Furlan e Meirelles.

         Enfim, Lula presidente adota discurso diferente de Lula candidato, não tendo mudado apenas num aspecto: não começou a governar, segundo diz, por culpa do governo anterior. Nesse ponto, seu discurso ainda é o de campanha e não o de presidente.

         Em todas essas contradições, a mais curiosa foi a sua afirmação de que a reforma tributária que propôs para o país (PEC 41/03, que resultou na EC 42/03) objetivava dois pontos: 1) não aumentar a carga tributária; 2) simplificar a vida do contribuinte.

         Em relação ao aumento da carga tributária, nos diversos depoimentos que fiz na Câmara dos Deputados, em palestras, conferências, congressos e encontros, mostrei que a leitura dos projetos de emenda constitucional e legislação infraconstitucional apenas apontavam para... o aumento da carga tributária.

         Infelizmente, apesar de todos os parlamentares da base do governo afirmarem que eu não tinha razão e que não haveria aumento, o aumento ocorreu, principalmente com as MPs 135 e 164, convertidas em lei, que elevaram consideravelmente a Cofins. E foi de tal ordem que o próprio governo reconheceu - algo raro - que exagerou na dose, passando a rever a tributação de alguns segmentos, embora mantendo a injustiça para muitos deles.

         Quanto ao discurso da ''simplificação'', todos ficaram surpresos. A produção legislativa tributária do governo Lula foi tão complicada, que os próprios especialistas ainda têm dificuldades de entender as novas regras. O Jornal do Brasil, em recente debate com especialistas da área e com este articulista, detectou a generalizada queixa de que ninguém entende as formas de calcular a nova Cofins, em face do sistema de controle interligado de empresas, obra de engenharia minotáurica, que nenhum fio de Ariadne seria capaz de levar a uma saída segura.

         E no que concerne à incidência de PIS/Cofins na importação, decididamente, houve a coroação do princípio de que ''se podemos complicar, por que simplificar?''

         Para os contribuintes, o governo federal, em ato declaratório, apresentou a seguinte fórmula de cálculo do tributo:

         ''Cofins importação = d* [VA + D* (1-c-d)+e*VA*X+e*D*Y](1-c-d)

         PIS importação = c*[VA+D*(1-c-d)+e*VA*X+e*D*Y](1-c-d),

         onde:

         X = [ 1+a+b*(1+a) - (c+d)* [a+b* (1+a)]](1-c-d-e)

         Y = [ 1+a+b* (1+a) ],

         (1-c-d-e)'',

         objetivando ''facilitar'' a vida dos contribuintes.

         À evidência, Suas Excelências, os formuladores de tão ''simples'' forma de cálculo, devem ter objetivado atender ao presidente Lula no seu intento de gerar empregos, visto que, agora, para calcular os tributos que têm que pagar, deverão os contribuintes, além de contadores, juristas-tributaristas, economistas, buscar o auxílio dos estudiosos de matemática pura, abrindo excelente campo, em todas as empresas, para nova forma de especulação científica. Quem sabe, da mesma forma que Renato Martins (meu filho) encontrou um modelo canônico de curvas trigonais diverso daquele idealizado no século passado por Gorenstein, os ''novos agregados'' à área tributária poderão encontrar caminhos matemáticos não convencionais para interpretar o modelo ''simplificador'' da política tributária, com formas mais amenas do que aquelas atrás transcritas.

         Creio que todos os contribuintes brasileiros, principalmente os pequenos, em face do modelo tributário adotado no governo Lula - de que a fórmula atrás é mero exemplo - devem estar ironizando. ''Viva a simplificação!'' É o que se pode dizer a respeito, para evitar o uso de vocabulário não pertinente a um artigo no JB, embora muito pertinente para qualificar o atual regime tributário brasileiro.

Jornal do Brasil, 20 de maio de 2004

* Ives Gandra da Silva Martins, 68, advogado tributarista, professor emérito da universidade Mackenzie e da Escola de Comando e Estado Maior do Exército, é presidente do Conselho de Estudos Jurídicos da Federação do Comércio do Estado de São Paulo.