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O melhor exemplo de Nelson Mandela
Autor(a): Adam Roberts, Slate

Não há a menor dúvida de que Nelson Mandela, o prisioneiro político mais famoso do mundo, que lutou contra o governo racista, líder magnânimo, foi um grande homem. Quando conversavam com ele, as pessoas sentiam ao mesmo tempo temor, veneração e os joelhos bambos. Madiba, o nome tribal pelo qual ele era carinhosamente conhecido por muitos, era fascinante e caloroso. Ele foi o responsável, mais do que qualquer outro indivíduo, pela transição pacífica na África do Sul.

 

O arcebispo Desmond Tutu, amigo íntimo de Madiba, companheiro e também líder da campanha contra o apartheid, disse-me certa vez que percebia uma imensa "generosidade de espírito" em Mandela. O arcebispo via, naturalmente, elementos cristãos na capacidade de Madiba de perdoar seus algozes racistas brancos e em sua compaixão pelos fracos. "Podemos até pensar em Jesus. É totalmente correto afirmar que há certos aspectos nele que o aproximam de Cristo." No entanto, não devemos lembrá-lo como um santo. Tutu não o via assim - e ria da ideia de que Mandela pudesse ser uma pessoa tão seca, irreal e desinteressante. Ele pode ser comparado a Mahatma Gandhi ou a Madre Teresa, como grande figura moral dos nossos tempos, mas o mito não deve se sobrepor à realidade de um indivíduo muito humano, extremamente complexo e apaixonante.

 

Comparado a outros políticos, na África e em outros continentes, ele se destaca por seu autodomínio. Eleito o primeiro presidente da África do Sul livre, só quis governar por um mandato. Se olharmos para o vizinho Zimbábue, perceberemos o contraste gritante: seu líder, Robert Mugabe, quase um déspota, governa o país há quase 40 desastrosos anos.

 

Entretanto, Madiba é muito mais interessante do que o vilão ao lado ou do que a simples figura deum santo. Suas realizações são maiores porque ele admite que sua política desastrada, às vezes, o levou a erros. Os fracassos são importantes. Ele foi um líder que, seguramente, soube aprender com os próprios erros e não o político arrogante que se recusa a aceitar seus fracassos.

 

Nas duas primeiras décadas de democracia após o apartheid, a África do Sul sofreu com uma enorme desgraça: a epidemia de aids. Mandela ignorou a disseminação do HIV e um número assustadoramente elevado de sul-africanos acabou infectado. Já em 1991, ele percebera (a julgar por seus apontamentos pessoais) que a doença ameaçava desencadear uma crise no país. No entanto, não fez quase nada para deter o contágio.

 

Mais tarde, em evento na Cidade do Cabo, ele lembrou que depois de passar tantos anos na prisão, não se sentiu à vontade para falar sobre um vírus sexualmente transmitido. A África do Sul enfrentou outros desafios durante sua presidência: a violência política, a revolta econômica, as constantes tensões raciais. No entanto, sua falta de ação na questão da aids deu lugar à total negação da epidemia e à perseguição dos que tentavam tratar da disseminação do HIV durante o mandato de seu sucessor, Thabo Mbeki. O resultado foi uma pandemia que matou milhões de sul-africanos por falta de medicamentos.

 

Para seu imenso crédito, Mandela reconheceu seu erro inicial. Depois de deixar a presidência, tornou-se um elemento importante de uma campanha para uma nova política de aids. Aposentado, defendeu a necessidade de educação e de tratamento eficaz, principalmente quando seu próprio filho sucumbiu à doença, em 2005. Madiba enfureceu Mbeki quando fez o Congresso Nacional Africano (CNA) obrigar a África do Sul a tratar com seriedade a aids.

 

Com a saída do negativista Mbeki, o país conseguiu controlar a pandemia. Quanto à política econômica, depois de permanecer anos na prisão, Mandela começou a governar a África do Sul acreditando, efetivamente, na economia soviética. Ele se baseou no exemplo dos líderes chineses (entre outros) e mudou sua posição. No entanto, estava demasiado ansioso para adotar novas estratégias, permitindo que a economia estatizada da África do Sul se abrisse e florescesse.

 

A África do Sul deve ser grata a ele por isso. Os últimos 20 anos de relativa estabilidade e persistente crescimento econômico foram um avanço muito maior do que muitos haviam previsto que ocorreria após o fim do governo do apartheid. Entretanto, inúmeros jovens sul-africanos desempregados e revoltados continuam revoltados.

 

Alguns atacam Mandela, tachando-o de sovina e de louco por abandonar as antigas políticas nacionalistas, populistas ou de extrema esquerda. Lembro de ter assistido a um funeral de um líder nacionalista africano adorado de Soweto, em 2003, no qual Madiba e Mugabe estavam presentes. A multidão composta em sua maioria de jovens africanos aplaudiu muito mais ruidosamente o ditador zimbabuano do que Mandela ou os outros líderes presentes.

 

Muitos estavam furiosos porque os brancos continuavam controlando uma enorme proporção do capital na África do Sul. Mesmo agora, alguns jovens acusam Mandela de ter se vendido a interesses minoritários. Segundo eles, o acordo que ele selou no fim do apartheid produziu uma guinada do poder político, mas poucas mudanças econômicas.

 

Lembro de uma carta ferina dirigida a um jornal, há dez anos, em que Madiba era chamado de "um albatroz enrolado em nosso pescoço". Os sul-africanos mais pobres, provavelmente, não têm nenhuma veneração por ele. Apesar da imensa mudança política ocorrida em 1994, a economia sul-africana continua notoriamente dominada pelos brancos.

 

Mandela, porém, fez o melhor que pôde diante de uma tarefa econômica difícil: estabilizou a vulnerável economia pós-apartheid, estimulou o crescimento e ofereceu benefícios previdenciários, mesmo que fosse impossível implantar rapidamente a redistribuição de recursos entre brancos e negros. Sua grande realização foi, evidentemente, a Constituição liberal que contempla direitos raciais, sexuais, de gênero e outros. Contudo, além disso, ele soube concluir acordos e admitiu a necessidade de mudar de estratégia.

 

Em sua vida pessoal, Mandela teve também alguns fracassos. Sua mulher que o diga. Num evento em comemoração do seu 90.º aniversário, Graça Machel me disse: "Ele não é definitivamente nenhum santo." E me contou que "não foi mesmo amor à primeira vista" quando os dois se conheceram, em 1990. O grande carinho entre os dois se consolidou mais tarde.

 

Mesmo em idade avançada, Madiba apreciava as mulheres bonitas. Uma jovem jornalista irlandesa lembra que ele a pediu em casamento numa entrevista coletiva. Uma amiga querida minha, uma sul-africana de origem indiana, acha que, na realidade, Mandela a pediu em casamento também (mais seriamente, porém), pouco antes de conhecer Graça. Quando jovem, ele era um belo lutador de boxe, advogado de ascendência aristocrática.

 

Às vezes, ele era também mesquinho. Num almoço com ele, em 2005, velhos amigos brincaram com ele por ser perfeccionista e pedante, quando exigiu uma determinada marca de água com gás e recusou outra. A bem da verdade, ele levou a brincadeira com bom humor. Seus filhos, às vezes, o culpavam por ser um pai distante. Ele podia ser frio, rigoroso e calculista. Graça Machel me disse que "Papa" (como às vezes ela o chamava) era obstinado, irritadiço e se mostrava intolerante quando os netos iam mal na escola.

 

Um dia será preciso responder a perguntas particularmente difíceis em relação às atividades de Winnie Mandela, sua segunda mulher, o grande amor de sua vida. Embora declarada inocente em um caso de assassinato, de 1991 (mas condenada por sequestro), ela continua sendo um personagem pouco claro em razão de outras duas mortes ainda não explicadas em Soweto, nos anos 80.

 

Em tudo isso - e em suas realizações como figura rica, humana, mas às vezes imperfeita -, Mandela tem muito a oferecer aos outros líderes. Ele gostava de brincar sobre a morte, dizendo que a primeira coisa que ele faria no céu - e ele não tinha dúvida nenhuma de que iria para lá - seria ingressar no Congresso Nacional Africano. Foi sua maneira de dizer que era um homem político e pragmático: não um santo. Vamos lembrá-lo como uma figura humana calorosa e poderosa. Não como um ser sobrenatural.

 

Tradução de Anna Capovilla
Foi correspondente da revista Economist na África do Sul



Fonte: O Estado de São Paulo, 08 de dezembro de 2013
10/12/2013

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