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Conceito e preconceito
Autor(a): Sérgio Roxo da Fonseca

            Segundo uma visão prática, portanto a mais simples, “preconceito” é o entendimento feito antes da certeza científica. Portanto, “conceito” é o que conhecemos como resultado de um amadurecimento maior, até mesmo como algo derivado da certeza científica que, quase sempre, é incerta.

 

            Os dois significados misturam-se quando contaminados por um entendimento político e também religioso, o que não deixa de ser político. Convencionou-se dizer que a Segunda Grande Guerra terminou em 1945 com a explosão das bombas atômicas sobre Hiroshima e Nagasaki. Antes disso, a imprensa veiculava um enorme rancor contra os alemães, italianos e japoneses.

 

            Durante o período passei a frequentar a escola e os alunos, transformando em atos a ideologia transmitida pela imprensa, hostilizavam as crianças japonesas, italianas e alemãs. Ecoam ainda na minha memória a arruaça feita na saída da aula, com os alunos perseguindo os colegas germânicos aos gritos: “alemão batata come queijo com barata”.

 

            O preconceito manejado como arma ideológica é de grande valia. Após aquela guerra passamos a hostilizar os russos. Hoje aprendemos a rejeitar os árabes e os venezuelanos. Trata-se de um aspecto da luta geopolítica.

 

            Há exemplos históricos. Antes de 1947, ou seja, da revolução pacífica liderada por Gandhi, a Índia era explorada brutalmente pelos ingleses. Em determinados clubes por eles mantidos, lia-se numa placa: “indianos e cachorros não entram”. Churchill chegou a dizer: “Os indianos são um povo bestial com uma religião bestial”. Florência Costa, no livro "Os indianos”, registra o fato. Conan Doyle, genial criador de Sherlock Holmes rebaixa os indianos ‘a categoria de bandidos.

 

            A doença do preconceito atinge até mesmo os mais graduados. O jornal Folha de S. Paulo, na edição de 16.5.2013, noticia que em 1999, em Harvard, a mais famosa universidade dos EUU, foi aprovada uma tese segundo a qual os hispânicos têm um QI rebaixado. É bom lembrar que nos EEUU os brasileiros também são hispânicos.

 

            Merece registro uma frase do notável professor Maurício Rocha e Silva, publicada em livro escrito com Anísio Teixeira, sobre s teoria do conhecimento: “Nada mais inteligente do que os movimentos de fuga de um ratinho quando é caçado, na cozinha, à noite, e, se avaliarmos inteligência pelos testes habituais, certamente o animal terá um QI acima de seu caçador, especialmente se se tratar de senhorita” (Diálogo sobre a Lógica do Conhecimento).

 

             Às vezes há um lado positivo. Hausmann, segundo Foucault, planejou a cidade de Paris com fundamento numa visão falsa das doenças. O preconceito, no entanto, contribuiu objetivamente para elevar aquela cidade como a mais bela do planeta. Não acertou no que via, mas acertou no que não via.



Fonte: Cedido pelo Autor
25/4/2014

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