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MORTE CEREBRAL
Autor(a): Jacy de Souza Mendonça
Possui graduação em Direito pela Pontifícia Universidade Católica do Rio Grande do Sul(1954) e doutorado em Direito pela Universidade Federal do Rio Grande do Sul(1968). Atualmente é professor titular da Pontifícia Universidade Católica de São Paulo e professor titular do Centro Universitário Capital

 Sinto muito, mas vou desagradar meus amigos médicos. Espero, no entanto, que eles sejam indulgentes comigo.

 

Há uma nítida e intencional distinção entre as expressões falência múltipla de órgãos, utilizada com frequência nas informações sobre falecimento de pessoas idosas e morte cerebral, empregada ao ser anunciada a iminente retirada de órgãos para transplante. O entendimento, para mim, é que, no primeiro caso, o paciente está mesmo morto (embora isso não seja dito explicitamente) e, no segundo, ainda não morreu (apesar de se pretender sugerir que isso já ocorreu). Acho manifestamente contraditório fugir do verbo morrer, no primeiro caso, e utilizá-lo no segundo; correto seria o inverso: falar em morte na primeira situação e apenas em falência cardíaca na segunda. Mas parece que se pretende mesmo ocultar a verdade da segunda hipótese.

 

É evidente para qualquer leigo a inutilidade do transplante de um órgão morto. Ele precisa estar vivo, ou seja, ser retirado ainda vivo, de um organismo vivo, ainda que na iminência da morte.

 

Nem me seduz a tentativa de justificação do transplante a partir da informação de que o doador está prestes a morrer, porque todos nós vamos morrer, mais cedo ou mais tarde, mas enquanto não tivermos morrido, estamos vivos (que me seja perdoado o plágio estilístico de uma política recente).

 

Por tudo isso, eu jamais autorizaria a retirada de órgãos de alguém, se dependesse de mim. A alegação de que, com meu gesto, estaria ajudando a recuperação ou a salvação de outra vida é, de fato, comovente, mas não suficiente para me levar à mutilação e à antecipação da morte de um ser humano em seus momentos finais. Que ele descanse em paz. Os profissionais da medicina podem ter significativo interesse pela permissão do ato, podem estar humana e piedosamente focados não na morte do doador e sim na sobrevida do potencial donatário. Mas não muda em nada minha visão do problema: morte é simplesmente morte, sem necessidade de adjetivação. Os adjetivos, nesse caso, têm por escopo ocultar que aquele que se diz morto, na verdade, é vivo, ainda não morreu.

 

Sei que o tema é extremamente polêmico, o que não inibe e sim estimula meu posicionamento. Reservo-me, apenas, o total e absoluto respeito às ideias contrárias, por mim veementemente rejeitadas.

 



Fonte: Autor
24/2/2017

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