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SINAIS DOS TEMPOS
Autor(a): José Raimundo Gomes da Cruz
Procurador de Justiça de São Paulo aposentado

“Caetano diz que sempre detestou

o refrão ‘corta o cabelo dele’”

“Ney afirma que Maria Sapatão

não fala mal da mulher”

O Estado de S. Paulo15/2/17, p. 1)

 

“Ninguém recusa ao gago o direito de se

exprimir. Mas seria adequado tipificar aquele

que risse da gagueira alheia? Todo tipo de

preconceito é nefasto. Mas há situações que

dificilmente escapam àquilo que a maior parte das

pessoas ainda considera ridículo. Rir daqueles

que se expõem a tal poderia ser considerado delito?”

(José Renato Nalini “Perspectivas Próximas para

os Direitos Naturais”. Direito NaturalUma Visão

Humanista. São Paulo : Cidade Nova, 2012. p. 107)

 

            Para Daniel Martins de Barros, no mesmo jornal e data citados, em crônica sob o título “Politicamente correto e estrategicamente enganado”, o “banimento de algumas marchinhas carnavalescas é só mais um capítulo na novela do politicamente correto” (p. C3). Voltarei ao texto de Barros adiante. Julio Maria, na mesma página do mesmo jornal escreve: “As notícias começaram a pular das páginas dos jornais aos poucos, anunciando que estes eram outros carnavais. Alguns blocos no Rio e outros em São Paulo estavam dispostos a não colocar mais músicas consideradas incorretas nos repertórios. O Cordão do Boitatá, no Rio, decidiu reforçar os cuidados diante de sua proibição de não tocar O Teu Cabelo Não Nega, de Lamartine Babo... seriam os vilões de um mundo que não condizia com a realidade.”

 

            Na mesma página e data do Estadão, as “músicas e expressões no alvo: Maria Sapatão A música de João Roberto Kelly... com Chacrinha, foi a mais executada no carnaval de 1981. A expressão pegou imediatamente. Cabeleira do Zezé João Roberto Kelly e Roberto Faissal compuseram outro hit para todos os carnavais. Sua letra é acusada de reforçar preconceitos contra gays, sobretudo na parte do ‘será que ele é...’ O Teu Cabelo Não Nega Lamartine Babo fez uma das mais imortais marchinhas em 1932 com versos como ‘o teu cabelo não nega, mulata / porque és mulata na cor / Mas como a cor não pega, mulata / mulata, eu que o teu amor”. A Pipa do Vovô Marcha de Manoel Ferreira e Ruth Amaral ficou famosa na voz de Silvio Santos, em 1987. Há intérpretes que julgam a letra preconceituosa contra os idosos. Mulata Bossa Nova João Roberto Kelly, de novo, faz outra música acusada de racista anos depois. À época, não houve nenhuma resistência. O problema seria o uso da palavra mulata. Ai, Que Saudades da Amélia a música de Mario Lago e Ataulfo Alves, de 1942, proibida em algumas rodas de samba do Rio de Janeiro, reforçaria a imagem do machista e da mulher ultra submissa.”

 

            Tudo isso sugere a recordação do filme de Woody Allen Meia Noite em Paris, de 2011. Gil Pender é um jovem escritor em busca da fama. De férias em Paris com sua noiva, ele sai sozinho para explorar a cidade e conhece um grupo de estranhos que são, na verdade, grandes nomes da literatura e outras artes do passado. Eles levam Gil a uma viagem ao passado e, quanto mais tempo passam juntos, mais o jovem escritor se “enturma” com tantos nomes de outras eras. Não falta certo tipo de má regulagem: o retorno ao passado, para alguns, volta aquém dos anos 1920, digamos o final do século XIX, não faltando o caso de um investigador, que chega mesmo à corte de Luiz XIV.

 

            Teria sentido, nos nossos tempos, certa espécie de condenação do passado? Veja-se o caso de Ai, Que Saudades da Amélia, inesquecível música do começo dos anos 1940. Ela poderia ser julgada com os padrões culturais da nossa era? A letra de Ai, Que Saudades da Amélia dirige-se a outra mulher, com séria crítica: Tudo que você vê, você quer. Mais: eu nunca vi fazer tanta exigência. Será que tamanha ambição passaria a ser expressão de virtude? A imagem da Amélia é da mulher solidária com o companheiro. Pelo menos, há várias décadas.

 

            Daniel Martins de Barros, também no Estadão de 15/2/17, p. C3 assina a crônica “Politicamente correto e estrategicamente enganado”. Para ele, o “banimento de algumas marchinhas carnavalescas é só mais um capítulo na novela do politicamente correto. Fenômeno mundial, mais intenso em alguns lugares do que em outros, a ideia por trás dele é muito bem intencionada: a linguagem cotidiana não apenas refletiria as diferenças históricas existentes entre grupos (privilegiados versus desprivilegiados, por exemplo), como também favoreceria a manutenção dessas diferenças.”

 

            O autor desse texto tenta estabelecer algumas posições, mas parece preferir logo outra saída: “Para os críticos do politicamente correto, o mundo está ficando muito chato: levar a sério marchinhas carnavalescas com conteúdo considerado preconceituoso seria uma bobagem. Nesse quesito, contudo, as evidências científicas apontam para outra direção. Vários experimentos realizados sobre o tema mostram que, por um lado, o humor não faz as pessoas se tornarem preconceituosas. Ninguém ouve uma música e pensa: ‘É mesmo! Negros são inferiores, como nunca me dei conta?’ Por outro lado, as piadas criam um ambiente de aceitação à discriminação – assim, quem já acreditava existir diferenças qualitativas entre grupos sente-se menos constrangido e tem mais chance de agir de forma discriminatória. Não por acaso, são as pessoas que mais se divertem com esse tipo de humor. Se está correto, porque então o politicamente incorreto é tão criticado?”

 

            O mesmo autor, Daniel Martins de Barros – Professor Colaborador do Depto. e Instituto de Psiquiatria da Faculdade de Medicina da USP – prossegue em sua argumentação razoável ao ponto de seu último parágrafo servir de final com que termino este artigo: “É preciso que os defensores da correção política deixem de gritar e apontar dedos se quiserem realmente se fazer ouvir. E é preciso que a sociedade entenda que eles têm um ponto. Ou essa novela se transformará numa história sem fim.”

 



Fonte: Autor
1/3/2017

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