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Prudência, precaução e clima
Autor(a): Francisco Borba Ribeiro Neto
Francisco, sociólogo e biólogo, professor e pesquisador nas áreas de Bioética, relação Igreja e cultura, e Ecologia Social, é coordenador de projetos do Núcleo Fé e Cultura da PUC-SP.

Diante do artigo de Wagner Balera (O clima e o final dos tempos), recém-publicado nessa coluna, alguns perguntaram se o aquecimento global não seria incerto e discutível, inadequado ao Magistério da Igreja. Ora, um tema totalmente consensual pouco necessita de exortações, e a maioria dos pontos da doutrina social católica são tomadas de posições perante questões polêmicas.

Para os norte-americanos, a questão climática se tornou partidária, principalmente depois que Al Gore, candidato democrata à Presidência derrotado em 2000, foi um dos ganhadores do Nobel da Paz, em 2007, por sua militância pela redução dos gases que causam o aquecimento global, o principal dos quais é o gás carbônico (CO2). Desde então, a oposição dos republicanos à redução desses gases – que existia em por razões econômicas – se tornou sistemática.

Agir com prudência, na visão católica, significa agir com decisão e responsabilidade em prol do bem comum (Compêndio de Doutrina Social da Igreja, CDSI 547ss). Para isso, deve-se buscar uma visão totalizante, que supere os partidarismos.

O aquecimento global tem considerável base científica. A maioria dos especialistas considera que existem evidências suficientes de um aumento gradativo da temperatura do planeta, com graves consequências para o modo de vida das populações. E é bem documentado o efeito de retenção de calor do CO2, cuja concentração está aumentando na atmosfera em consequência da poluição.

O consenso pode não ser total, mas o compromisso dos países do G-20 quanto a essa questão mostra a solidez da posição defendida pelo Papa Francisco na Laudato Si ’ (LS 23ss): apenas os Estados Unidos não têm se comprometido com uma redução drástica das emissões de CO2.

Os que questionam esse consenso se baseiam nas observações, reconhecidas pela comunidade científica, de que houve aumentos da temperatura do planeta – associadas com aumentos da concentração de CO2 na atmosfera – em períodos anteriores à existência do ser humano na Terra. Portanto, esse fenômeno ocorre também de forma natural. O que não consideram é que a ação humana pode combinar-se com as causas naturais, tornando o problema muito mais grave.

Por isso, a Doutrina Social da Igreja julga a questão climática segundo o princípio da precaução: devemos diminuir a emissão dos gases que causam o aquecimento global, mesmo que seja só para evitar o risco de piorar uma ameaça natural (CDSI 469).

Nesse caso, ser prudente significa investir em fontes alternativas de energia, que reduzam a emissão de CO2 e gases semelhantes.



Fonte: Jornal O São Paulo
10/8/2017

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