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BANDIDOS !
Autor(a): Jacy de Souza Mendonça
Possui graduação em Direito pela Pontifícia Universidade Católica do Rio Grande do Sul(1954) e doutorado em Direito pela Universidade Federal do Rio Grande do Sul(1968). Atualmente é professor titular da Pontifícia Universidade Católica de São Paulo e professor titular do Centro Universitário Capital

  Quando criança, morávamos no interior do Estado do Rio Grande do Sul, em uma casa cujas portas estavam sempre abertas. À noite, ainda pequeno, eu tinha por vezes sonhos preocupados por causa disso, mas eram muito raras as notícias de furtos, diurnos ou noturnos. Minhas experiências negativas eram geradas apenas pela leitura dos livros de aventura. Brincávamos na rua a qualquer hora, passeávamos tranquilos por todos os lugares, porque não havia assaltante de plantão.

 

Que aconteceu com o Brasil de lá para cá? A quase totalidade das notícias de hoje, na TV ou nos jornais, estão na seção criminal, quando cabem. As fronteiras estão abertas ao banditismo para o tráfico de armas e drogas. As terras para prospecção de ouro e pedras preciosas estão reservadas aos criminosos, ainda que sob o rótulo de reservas naturais ou indígenas. As pessoas são assaltadas enquanto caminham pacificamente pelas ruas, os motoqueiros se transformam, de repente, em ladrões e assassinos. Pessoas são transformadas em vítimas quando viajam em paz em um coletivo urbano. O motorista de táxi pode ser um bandido disfarçado. São inúmeros os furtos e roubos diários de carros e motos. Os transportadores de carga não conseguem mais fechar contratos de seguro, pela assustadora frequência dos roubos. Caixas bancárias são estouradas, carros fortes são assaltados, casas de comércio são obrigadas a fechar em razão da sucessão de assaltos que as levam à falência. Embarcações, gran

des ou pequenas, são vítimas da pirataria, que antes só víamos nas telas do cinema. Cartões de crédito e veículos automotores são clonados. Os guardas de trânsito que interceptam um veículo podem ser assaltantes disfarçados. Telefones celulares são arrancados das mãos distraídas. A criminalidade sexual deixou os limites da individualidade e passou a ser coletiva. Na guerra contra os policiais, estes são mortos diariamente pelos delinquentes. Bandidos dirigem suas quadrilhas pelo telefone celular, até de dentro dos presídios. A quadrilha criminosa às vezes é integrada ou comandada até por policiais. O magistério, em qualquer nível, deixou de ser atividade honrosa e passou a ser profissão de risco, ante a violência dos alunos. E por mais que eu me esforce não conseguirei esgotar essa lista.

 

Pior ainda, a criminalidade despreza hoje os níveis sociais e instala-se nos mais elevados patamares da economia e da política. Eminentes empresários e autoridades são flagrados enchendo os bolsos com pacotes de dinheiro ilícito. Outros permanecem fechados como ostras para ocultar a fonte de seu enriquecimento. Legisladores vendem projetos de lei e votos; juízes vendem sentenças; funcionários públicos vendem negociatas... Não é mais, portanto, a carência econômica que justifica a delinquência; é a cupidez pela cupidez; é a banalidade do mal.

 

O cidadão de bem não encontra lugar seguro. Tudo é risco.

 

Como chegamos a este estado de coisas? Quando e como isso vai terminar? Mais grave ainda: vai terminar? Estamos vivendo em um País de bandidos, cercados por bandidos, dominados por bandidos e parece-nos normal; nem notamos que não é isso o que ocorre mundo a fora.

 

O meu Brasil da infância, que era tranquilo e feliz, é hoje assustador.

 

Mudou o carnaval, ou mudei eu?

 

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Fonte: Autor
4/9/2017

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