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Tarzan, Jane e Chita na guerra cultural
Autor(a): Marcelo Musa Cavallari
Marcelo Cavallari, 57, é escritor, tradutor e jornalista especializado em assuntos internacionais. Traduziu “O Livro da Vida de Santa Teresa D’Ávila”, para a Companhia das Letras e escreveu “Catolicismo”, para a Editora Bella.

No ano de 1967, quando os hippies viviam seu apogeu na esquina das ruas Haight e Ashbury em São Francisco, Ronald Reagan, um dos mais importantes presidentes norte-americanos do século XX, tomava posse como Governador da Califórnia. Atribui-se a ele uma piada sobre os jovens desgrenhados e sarapintados que consumiam drogas, tocavam violão e faziam amor, mas não faziam a guerra, nem algum tipo de trabalho produtivo. O hippie, dizia Reagan, era um sujeito que se parecia com o Tarzan, vestia-se como a Jane e fedia como a Chita.

Depois do verão de 67, os hippies declararam: “O sonho acabou”. Não é verdade. O sonho, ou a imaginação, como disseram os estudantes franceses de maio de 68, primos irmãos dos hippies, tomou o poder. A ideia de que o único objetivo da vida é a diversão – sexo sem filhos, drogas, bebidas, balada –; um conceito de cidadania que só inclui direitos e no qual gritar slogans na rua é toda a responsabilidade social que se está disposto a exercer; e a visão de que tudo o que a alma humana, retraduzida para o grego Psique pela Psicologia, Psiquiatria e Psicanálise, precisa é se sentir bem – para o que terapias, remédios ou técnicas orientais de meditação bastam – são filhos diretos dos hippies. O sonho não acabou, ele só virou o pesadelo em curso.

A piada acerta três elementos essenciais da contracultura que, desde os anos 1960, vêm dissolvendo a civilização ocidental por dentro. Desgrenhado, o hippie se parecia com o Tarzan por desprezar a distinção entre natureza e cultura. O comportamento irreverente – expressão que se usa há décadas como elogio – decorre da falta de respeito com tudo aquilo que, por não ser natural, é visto como desnecessário ou prejudicial à busca da satisfação.

Veste-se como Jane por não reconhecer a distinção entre homem e mulher. Não tanto para libertar a mulher de algum papel subserviente a que a civilização a teria relegado, mas para liberar todo tipo de ato sexual de qualquer limitação moral. A teoria de gênero que hoje acumula vitórias políticas é apenas o mais recente estágio da revolução sexual, que a pílula e o avanço tecno-científico-industrial, condenados pelo Beato Paulo VI já em 1968, tornaram possível.

 

Cheira como a Chita ao não reconhecer a distinção entre os seres humanos e os animais. A visão biológica segundo a qual o homem não é mais do que uma espécie de ser vivo entre milhares de outras geradas pela evolução vem se tornando a base até de outras ciências – Psicologia, Sociologia etc... –, como campo último de explicação do comportamento humano. Para as franjas mais radicais da militância ambientalista, pior do que apenas uma espécie animal, o homem é um peso excessivo sobre o meio ambiente. Uma espécie de câncer que a mãe-terra sofre.

Sem a violência dos linchamentos e até do canibalismo que marcou a Revolução Cultural Chinesa, também ela fruto dos anos 1960, a contracultura ocidental realizou a destruição dos “Quatro Velhos” que Mao Tsé Tung odiava: velhos hábitos, velhos costumes, velhas ideias e velha cultura.

No Ocidente, a velha cultura que se quer destruir é aquela criada pelo Cristianismo. Sessenta anos depois de declarada a guerra à cultura, livres da civilização cristã, da moral cristã e do estatuto especial do homem diante de Deus, Tarzan, Jane e Chita contemplam mesmerizados as telas de computadores celulares e tablets de onde esperam ver brotar, via internet, a singularidade, a superinteligência coletiva e tecnológica que, caricaturando a antiga transcendência cristã, tornará o humano obsoleto. Não é por acaso que também a internet foi imaginada pela primeira vez por Stewart Brand, um hippie com o símbolo da paz pendurado no pescoço e que guiava um ônibus colorido na Califórnia dos anos 1960.



Fonte: Jornal O São Paulo
10/10/2017

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