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HELEY DE ABREU, HEROÍNA DE JANAÚBA
Autor(a): José Raimundo Gomes da Cruz
Procurador de Justiça de São Paulo aposentado

         A região da minha cidade natal é o extremo norte do Estado de Minas Gerais: Espinosa, com seus atuais 31 mil habitantes, faz divisa com Urandi, Estado da Bahia. Como, na época, só havia, em Espinosa, o curso primário do Grupo Escolar Comendador Viana (nas décadas seguintes, apareceriam outros níveis de educandários, até faculdade de letras de Universidade de Montes Claros), recebendo meu diploma, em dezembro de 1948, meus pais já tinham programado minha ida para o internato do Colégio Arnaldo, em Belo Horizonte, precedido do exame de admissão, naturalmente. No meu livro Espinosa, anos 40 – depoimento de um menino curioso (São Paulo : 1997) – tratei de tudo de que me lembrava da época, mesmo alguns fatos relativos ao internato do Colégio Arnaldo.

 

         Agora, o noticiário recente fala de tragédia ocorrida em Janaúba, cidade da região de Espinosa. Certo servente da Creche Gente Inocente de Janaúba ateou fogo em crianças do estabelecimento. De início, nove vítimas faleceram, o mesmo acontecendo com a professora Heley de Abreu, segundo o Estadão de 9/10/17, que tentou salvar as crianças. Ela terá seu nome lembrado, já que será o novo nome da creche, pois tal professora morreu “em decorrência de queimaduras sofridas após salvar crianças”.

 

         A atual população de Janaúba, segundo o Google, é, de acordo com o IBGE, 2016, de 71.279 habitantes, só superados, na região do norte de Minas, pelos 338.381 (2010), de Montes Claros, ainda segundo o Google.

 

         Na segunda metade da década de 1940, além de Espinosa, já eram municípios, na região, Monte Azul, Mato Verde e Porteirinha. Com a chegada da linha férrea da Central do Brasil, Janaúba ainda nem era município. Mas logo passou a ter crescente progresso, com expressivo índice de habitantes, entre outros índices. Sobre o que viria a ocorrer com os nossos trens, escrevi “Ainda o trem do mineiro” (no meu livro Cinema, Verdade e Fantasia, São Paulo : 2012, pp. 179/182).

 

         Ainda segundo o Google, Janaúba “tem, como rodovias, a MGC-122, que a liga ao sul à região de Montes Claros e Belo Horizonte; ao norte, comunica Janaúba a Espinosa e região do Sudoeste da Bahia destino a Guanambi, Vitória da Conquista, rumo à BR-116 e a BR-101 e a rodovia MG-401, que liga o norte da cidade às cidades de Verdelândia, Jaíba e Matias”.

 

         A atitude da professora de 43 anos foi reconhecida pela Presidência da República que lhe concedeu a Ordem Nacional do Mérito. No dia do enterro, um cortejo levou seu corpo para ser aplaudido e homenageado pela população da cidade. "Ela era muito dedicada e carinhosa. Jamais sairia da sala sem tirar os alunos de lá", conta Maria, que trabalhou com Heley de 2012 a 2014 na EE Luzia Mendes Siqueira, também em Janaúba. "Ela via na Educação uma saída para os problemas do mundo. Era a prioridade da vida da Heley. Ela tinha sempre de fazer o melhor que pudesse, tudo muito perfeito", diz. A mineira chegou com vida ao hospital depois do ataque, ocorrido em 5 de outubro. Com 90% do corpo queimado, não resistiu e morreu, deixando três filhos (Breno, de 15 anos, Lívia, 12, Olavo, um ano e três meses) e o marido, Luiz Carlos. Heley teve um outro filho, Pablo, que se afogou e morreu na piscina de um clube. Ele tinha a idade da maioria das crianças que faleceram queimadas na creche. "Talvez seja por isso que ela via os alunos como filhos dela", diz Maria.

 

         Ainda segundo o Google, “Tragédia absurda”, disse o Papa Francisco, em mensagem ao bispo de Janaúba. Segue-se a informação de que o texto do Vaticano, enviado a Dom Ricardo Brusati, foi lido na missa de sétimo dia da professora Heley Abreu. Crianças também tiveram homenagens nesta quarta-feira.

 

         Relembro, a propósito da heroína de Janaúba, minha crônica “Lembremos dessa grande mulher, Victoria Soto”, que a APMP divulgou em 16/10/15, cujo último parágrafo é o seguinte: “Preciso ser breve, para falar de VICTORIA SOTO. Ela salvou, nesse massacre de 27 pessoas, em Connecticut, EUA, vinte alunos, todos ainda crianças, escondendo-os num closet e recomendando-lhes o maior silêncio. Diante do atirador alucinado, ela protegeu os meninos, informando que eles se achavam, naquele momento, na aula de ginástica. Sua atitude destemida lhe custou a vida: o maníaco alucinado não a perdoou.”

 

         HELEY DE ABREU merece homenagens semelhantes, por sua grandeza.



Fonte: Autor
18/10/2017

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