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O jogo, inversão do bem comum
Autor(a): Carlos Aurélio Mota de Souza
Livre-docente em Teoria Geral e Filosofia do Direito - UNESP,Pós-doutorado em Filosofia do Direito ,Doutor em Teoria Geral e Filosofia do Direito – USP, Mestre em Processo Civil – USP, Pós-graduação em Filosofia , Autor de Direitos Humanos. Ética e Justiça. Ensaios, Direito Natural. Uma visão humanista. (Organizador),Princípios Humanistas Constitucionais. (Autor e Coord.) ,Responsabilidade Social da Empresa. (Autor e Coord.) ,50 Anos da Declaração Universal dos Direitos Humanos. (Org)

 

Enquanto as comunidades trabalham para a construção de um bem social comum, desde a família às sociedades, às empresas e ao próprio Estado, milhões de pessoas entregam suas parcas economias a alguns poucos ganhadores nos jogos lotéricos.

O jogo sempre foi acoimado de dilapidar patrimônios, empobrecendo e humilhando as pessoas que contribuíram duramente para a formação das famílias.

Sejam os inocentes carteados, as simples e modestas apostas nas loterias, hoje em dezenas de modalidades, incluídos o sorteio quase inocente dos bingos, até jogos sofisticados nos grandes cassinos, todos acarretam a perda irreparável de riquezas, desde modestas apostas, até fortunas milionárias.

Dostoievski descreveu magistralmente a degradação moral das pessoas, em seu personagem Alexis Ivanovitch, na obra  O jogador, em que retrata a paixão de uma alma pela ambição desenfreada de ganhar nas apostas.  Trata-se de uma análise magnífica da vida e das angústias de um jogador, em sua dependência até limites insuportáveis. Num enredo que se desenrola no meio aristocrático, o vício do jogo é encarado por Dostoiévsky como um sintoma da falta de inteligência de que padeciam as elites.

Célebre entre nós, Rui Barbosa retratou com palavras candentes a paixão compulsiva de um político marcado pelo jogo:

De todas as desgraças que penetram no homem pela alma, e arruínam o caráter pela fortuna, a mais grave é, sem dúvida nenhuma, essa: o jogo na sua expressão mãe, o jogo na sua acepção usual, o jogo propriamente dito; em uma palavra, o jogo: os naipes, os dados, a mesa verde.... Quantos destinos não se contam por aí dominados exclusivamente na sua irremediável esterilidade pela ação desse fadário maligno! ... É a lepra do vivo e o verme do cadáver.

E hoje, não é?

Outras descrições realistas sobre a decadência moral que as modalidades de jogo provocam na alma da sociedade: o que ganha o homem e a sociedade com o jogo? Qual a função social da jogatina para a formação benéfica do caráter de um povo? Dirão que todos os países têm as suas loterias, que motivam as pessoas, sobretudo as mais pobres, na esperança de amealharem uma fortuna, que o trabalho assalariado não lhes proporcionou. Vã esperança...

As casas lotéricas, às vésperas dos sorteios, aparentam portas de templos em que os fiéis adentram para pedir uma graça divina, a esperança de um bem material que amenize seus sofrimentos. Docilmente em filas, como em estado de oração, enfrentam resignadamente a vez de depositar nas urnas seus pedidos, escritos em números cabalísticos, que esperam lhes tragam a redenção de seus males. Rezam para o deus Mamona, assemelham-se aos paralíticos da piscina de Siloé, quando passava o anjo e agitava as águas, e só aqueles que chegassem primeiro seriam agraciados!

No entanto, as loterias nada contribuem, diretamente, para a construção do bem comum social, para as pessoas em comunidade. Ganhadores não partilham suas fortunas ou aplicam parte em obras sociais, antes as entesouram avidamente. O sistema lotérico tornou-se poderoso método de captação de recursos, exclusivos da União, de indisfarçável caráter político e não apenas financeiro. Arrecadações milionárias ingressam nos cofres governamentais para se reverterem em obras públicas, casas populares, financiamento de obras sociais etc.

Enquanto arrecada milhões a cada rodada de apostas, o governo mantém as pessoas na esperança ilusória de ganhos milionários, tentação que se renova a cada jogo, mantendo-as presas a uma engrenagem que não cessa de rodar: tornam-se escravas de um vício, a paixão pelo dinheiro fácil.

E assim, o bem comum não será mais construído por comunidades em benefício de pessoas, pelo trabalho, como as economias familiares, os patrimônios empresariais, os empreendimentos produtivos etc., mas, indiretamente, em proveito de órgãos públicos, de gestão partidária, senão financista.

Dir-se-á que o jogo popular não empobrece, mas é o vício nos costumes que mais se alastra. É o ladrão das poupanças, em que as vítimas entregam seu ouro ao malfeitor.



Fonte: Autor
19/1/2018

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