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BRASIL, PAÍS RICO
Autor(a): Jacy de Souza Mendonça
Possui graduação em Direito pela Pontifícia Universidade Católica do Rio Grande do Sul(1954) e doutorado em Direito pela Universidade Federal do Rio Grande do Sul(1968). Atualmente é professor titular da Pontifícia Universidade Católica de São Paulo e professor titular do Centro Universitário Capita

No passado, um amigo costumava me dizer que ninguém é rico em função do que ganha, mas sim do que gasta. De início achava graça, mas aos poucos fui me convencendo da profunda verdade dessa assertiva, até porque, no começo de minha carreira no Ministério Público, trabalhei com um Juiz que, embora recebesse mensalmente como todos os demais magistrados, festejava o 1º de maio porque era costume à época, naquela data, a Presidência da República promulgar um Decreto com o reajuste anual do salário mínimo; e ele vivia (com mulher e filha) do salário mínimo. Guardava o resto no Banco, quando nem havia esquemas de aplicações rentáveis. Adotava rigorosamente a filosofia de meu amigo: ganhava bem, mas vivia em condições paupérrimas, gastando o mínimo possível e imaginável.

Essa lembrança me veio à mente agora lendo informações sobre a condição financeira do País: Fundo Partidário eleitoral de R$ 6 bilhões, passagens aéreas no Congresso Nacional de R$ 2,2 bilhões ao ano, auxílio moradia para Juízes de R$ 4,3 bilhões ao ano, despesas da Câmara dos Deputados de R$ 5 bilhões e do Senado Federal de R$ 4 bilhões ao ano, aviões a jato à disposição das autoridades, etc. Não conferi todos os números nem ampliei a pesquisa, mas, estarrecido, acreditei na veracidade desses dados. Lembrei-me, em sequência, da notícia segundo a qual, na Suécia, os membros do Parlamento reúnem-se apenas alguns dias por ano, durante os quais viajam de trem, hospedam-se em hotéis e percebem apenas um jeton. A interpretação de tudo isso, segundo a filosofia de meu amigo, seria que, pela forma como gasta, o Brasil é um País rico, enquanto a Suécia é um país pobre... Equívoco: a verdade contraria absolutamente tal conclusão.

Essa lição de vida nos ensina que nosso Brasil, ou melhor, seus administradores, são pândegos irresponsáveis. Estamos no limiar da miséria política absoluta porque eles gastam e autorizam gastar tudo o que temos e muito mais, de forma lícita ou não, enquanto deveríamos estar numa cruzada geral pela redução de custos de toda a natureza. Por que esbanjamos tanto? Por que temos tantas casas ditas legislativas no plano federal, estadual e municipal? Com tanta gente... Por que nossos servidores públicos precisam ser tantos e gozaram de tão elevado nível de remuneração? Por que tantos benefícios e penduricalhos financeiros? Por que, enfim, tanta mordomia? Por que e para que tantos órgãos desnecessários e inúteis?

Enquanto isso, é absolutamente certo que só conseguiremos o bem-estar se e quando eliminarmos todos os custos desnecessários ou inúteis e aplicarmos as riquezas que Deus nos deu em favor de nosso povo.

Nós gastamos como ricos, mas não somos ricos e, exatamente por isso, não deveríamos gastar como se o fôssemos. Nosso cobertor é curto, curtíssimo, a tal ponto que, se tentamos cobrir um espaço, somos obrigados a descobrir outro. Tão curto que não nos sobra nada para investir naquilo em que é necessário fazê-lo. Somos tão pobres que não temos o que aplicar na saúde pública, na educação, na previdência social, na segurança, no saneamento, no transporte público, etc. etc. O que a arrecadação tributária consegue, mal paga a finalidade-meio do Estado (a máquina burocrática), não restando quase nada para a atividade-fim (o bem-estar dos cidadãos).

Ainda bem que se aproxima novamente o momento de substituir nossos atuais administradores. Quem sabe acertamos dessa vez. Quem sabe os novos pensem como pobres e não como ricos, empregando nossos recursos para elevar a qualidade de vida de nosso povo.

A esperança é a última que morre.



Fonte: Autor
25/5/2018

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