Entrevistas

 
Brasil terá números para mostrar na Rio+20
Entrevistado(a): Luiz Alberto Figueiredo Machado
Secretário executivo da Comissão Nacional para a Rio+20

Dizem que de boas intenções o inferno está cheio. Será que a Rio+20, a cúpula sobre desenvolvimento sustentável que começa dia 20 de junho, resultará em compromissos palpáveis, cujo cumprimento possa ser cobrado pelos eleitorados de seus respectivos governos? O embaixador Luiz Alberto Figueiredo Machado, secretário executivo da Comissão Nacional para a Rio+20, garante que sim.

Em entrevista ao Estado, de Nova York, onde conduz as negociações que definem o alcance dos acordos por consenso, Figueiredo afirma que a Rio+20 estabelecerá metas quantificáveis e com data, em setores como energia, água, segurança alimentar, consumo e cidades sustentáveis. Ele defende as credenciais do Brasil para se projetar globalmente como protetor do meio ambiente e garante que não ouve cobranças de seus interlocutores por causa do Código Florestal e do investimento no pré-sal. 

Em que medida a Rio+20 tem um impacto sobre a projeção internacional do Brasil?
Não há dúvida de que tem. Se olharmos o Brasil de hoje e o de 92, são muito diferentes. Hoje você tem um país que apresenta números importantes em termos de crescimento econômico, inclusão social e redução de taxas de desmatamento - portanto, de proteção ambiental. Nas três dimensões do desenvolvimento sustentável, o Brasil tem o que mostrar. Portanto, é um país com uma outra inserção internacional. Os próprios emergentes assumiram um papel completamente diferente. Hoje em dia eles são as locomotivas do desenvolvimento global, seja como produtores ou consumidores.

É importante nas negociações apresentar credenciais. O Brasil é cobrado por ter deslocado seu foco do etanol para o pré-sal?
Não estou de acordo com você. Nenhum país do porte do Brasil tem uma matriz enérgica tão limpa como a nossa. Quase 90% da nossa energia elétrica é renovável. De toda a matriz, 46% é limpa. Se compararmos com países europeus que têm entre 2% e 3% da matriz limpa, eles é que têm de ser cobrados, não nós. Não somos cobrados.

Os seus interlocutores falam sobre os vetos ao novo Código Florestal?
Não. No âmbito das negociações internacionais não se comentam temas internos de outros países. No nosso caso, o que temos é a democracia funcionando. É um tema que passou pelo Legislativo e foi para o Executivo.

A Europa, que tem sido parceira do Brasil na área ambiental, sofre uma crise, e a conversão para a economia verde é muito custosa. Não há uma diminuição do interesse europeu, pelo menos neste momento, em levar adiante os projetos com relação à mudança climática?
Não me parece isso, sinceramente. Pelo que percebo, a Europa segue firmemente empenhada em buscar um futuro de emissões mais baixas. Muitos deles emitem muito pelo fato de terem uma matriz energética muito suja, mas é visível o empenho deles em alterar esse quadro por meio de tecnologias mais limpas.

Os Estados Unidos estão envolvidos na campanha presidencial, e o tema ambiental não é um dos principais. Como o senhor vê a expectativa da participação ou não do presidente Barack Obama na cúpula e da atuação americana?
Os Estados Unidos têm sido muito ativos nos trabalhos preparatórios da conferência, nas negociações do Comitê Preparatório. Sempre têm apresentado ideias e demonstrado um ânimo de cooperação. Portanto, nossa expectativa é a de que a participação deles seja nessa linha de cooperação. A autoridade que virá ao Rio é que vai ser anunciada oportunamente.

A China, que é uma parceira do Brasil em temas econômicos e às vezes políticos também, tem um sério problema ambiental, principalmente por causa de sua matriz muito baseada no carvão. Como está a imagem da China, e em que medida ela ajuda ou atrapalha o Brasil?
A imagem da China nessa área é muito boa, porque é o país que de longe mais investe em energias renováveis, principalmente solar e eólica. Eles hoje detêm grande parte da tecnologia nessas duas áreas. Além disso, (investem em)hidrelétricas. E um programa de reflorestamento importantíssimo. Essa imagem de uma China que não se preocupa com o meio ambiente é muito antiga, não corresponde aos dados estatísticos internacionais. 

E a Índia?
Também tem programas importantes na área de reflorestamento. A Índia naturalmente investe muito em energia. É claro que, quando um país tem uma população do tamanho da Índia, há grandes desafios para o atendimento das necessidades sociais, e de erradicação de pobreza. A Índia tem enfrentado esses desafios com bastante empenho e tem mostrado resultados importantes. 

O senhor espera compromissos concretos no comunicado final da Rio+20?
Esperamos compromissos políticos com o desenvolvimento sustentável como a base de tomadas de decisão em todos os níveis. Não se pode mais separar em compartimentos estanques o econômico, o social e o ambiental. A integração dessas três dimensões aponta para um futuro com padrões de consumo mais sustentáveis, em um mundo que poderá abrigar até 2050 mais de 9 bilhões de pessoas.


Fonte: O Estado de S.Paulo, 27 de maio de 2012
28/5/2012

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