Entrevistas

 
A persistência de Gandhi
Entrevistado(a): Pascal Alan Nazareth
Diplomata indiano. Autor de “A Extraordinária liderança de Gandhi”, publicado pela editora Cidade Nova.

A persistência de Gandhi

 

 

SOCIEDADE

Difusor dos ideais gandhianos no campo da política internacional e da educação, o diplomata indiano Pascal Alan Nazareth é o autor de “A Extraordinária liderança de Gandhi”, publicado pela editora Cidade Nova. Recentemente, ele esteve no Brasil para uma série de conferências sobre a vida e a obra do maior líder hindu do século XX

 

Thiago Borges

 

Embaixador da Índia no Egito, ganhador do Prêmio da Paz U Thant, membro do Serviço de Relações Exteriores, diretor-geral do Indian Council of Cultural Relations (ICCR) e fundador da rede de difusão dos ideais gandhianos Sarvodaya International Trust (SIT). Ao longo de 35 anos de uma carreira diplomática de excelência, Pascal Alan Nazareth presenciou mudanças significativas na política internacional, desde a bipolaridade que dividiu o mundo por décadas até a degeneração de ideologias antes consolidadas em nível internacional. Já aposentado, viu o surgimento da ameaça terrorista após o 11 de setembro e a agressiva reação do Ocidente. Tudo isso contribuiu somente para consolidar sua convicção da fragilidade da violência como método de ação política. Em entrevista à Cidade Nova, o diplomata destaca o quanto a figura do Mahatma Gandhi persiste e, ao mesmo tempo, renova-se como paradigma de ação política.

 

Gandhi viveu em um contexto fortemente marcado pelo colonialismo. Como fazer uma leitura de suas ideias no mundo de hoje?

O sucesso da luta não violenta de Gandhi contra o colonialismo na Índia não só incentivou outros povos colonizados a usar este método, como também destruiu o mito de que o colonialismo era o “fardo do homem branco” para civilizar “os povos primitivos” da Ásia e da África. Além disso, desde que Gandhi declarou: “Através da libertação da Índia, eu busco libertar as chamadas raças mais fracas do mundo”, a Índia independente assumiu a liderança nas Nações Unidas e em outras instâncias no que se refere à luta pela descolonização ao redor do mundo. Como resultado de tudo isso, 50 anos após a morte de Gandhi mais de 130 países tinham se libertado do colonialismo e outros 20 haviam se emancipado da opressão de regimes racistas, fascistas e comunistas no sul dos Estados Unidos, no Leste Europeu, nas Filipinas, na África do Sul e no Chile. Em quase todos esses casos, de forma não violenta. Esta é a democratização mais abrangente da geopolítica internacional em toda a história.

 

Como os ideais de Gandhi influenciaram a sua carreira de diplomata?

Diplomatas são essencialmente promotores de paz. Há um velho ditado que diz: “Quando os diplomatas fracassam, os generais são cha­mados”. Os primeiros embaixadores da Índia foram os monges budistas que o imperador Ashoka enviou a Sri Lanka, Birmânia, Khotan, Báctria, Damasco, Atenas e Alexandria mais de dois mil anos atrás. Todos eles levaram a mensagem de paz, não violência e de fraternidade universal. Na modernidade, a mesma mensagem foi propagada por Mahatma Gandhi. O programa adotado por ele é melhor descrito em suas próprias palavras: “A luta não violenta não é um plano de tomada do poder, mas um programa de transformação de relacionamentos que culmina em uma transferência pacífica do poder”. Isto é o que aconteceu na Índia. O respeitável historiador britânico Arnold Toynbee elogiou Gandhi por ter sido “tão benéfico para a Grã-Bretanha quanto o foi para seu próprio país. Ele tornou impossível para nós dominar a Índia, mas, ao mesmo tempo, ele tornou possível para nós abdicar desse domínio sem rancor e sem desonra”. A transformação do modo de abordar as relações é a melhor abordagem para todos os diplomatas. 

 

As ideias de Gandhi podem dar respostas convincentes para as questões diplomáticas atuais?

Gandhi afirmou que “a paz virá quando a verdade for buscada, e a verdade i



Fonte: Revista Cidade Nova, nº 8, agosto 2012, pp. 24-27.
10/8/2012

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