Variedades

 
A visita da velha senhora
Autor(a): Sérgio Roxo da Fonseca

O filme “A Visita da Velha Senhora”, protagonizado por Ingrid Bergman e Anthony Quiin foi levado aos cinemas em 1964. Originariamente, tratava-se da adaptação de uma peça teatral escrita pelo suíço Friederich Dürrenmatt. Vale a pena ver de novo para tentar extrair dele ou dela quaisquer das várias lições contidas em seu tema. Quando não buscar entender algumas das chaves da nossa existência.

Ingrid Bergman faz o papel de Clara que se apaixona por Schill, papel vivido por Quinn. Fica grávida. O namorado e os homens “honestos” repudiam Clara, expulsando-a da cidade. Torna-se prostituta e casa-se com um milionário. Quando velha, volta para visitar a cidade, então mergulhada na pobreza. Seu antigo amor, Schill, é o prefeito.

Todos aqueles que repudiaram a jovem pobre passam a venerar a velha rica que passeia pelos lugares, revê os amigos e até mesmo o antigo e inesquecível amor. Resolve ir embora. Para tanto reúne a comunidade, comunicando especialmente aos homens “honestos” que deixará uma fortuna para todos. Schill está presente e aplaude a generosidade.

Mas há uma única condição, diz ela. Todos devem matar Schill ou não ficarão ricos. Inicialmente a proposta é recusada. Em seguida todos olham para Schill, demonstrando que a firmeza de seus caracteres é frágil. A felicidade não está na vida de Schill, mas no dinheiro prometido pela velha senhora. Matarão o querido amigo Schill em troca daquele montão de dinheiro?  Na peça teatral, os homens “honestos” optam pela morte de Schill. A narrativa do filme é interrompida sem revelar a conclusão encontrada por Dürenmatt.

Muitas foram as interpretações feitas, entre as quais uma que via na Europa daquele tempo a imagem dos homens “honestos”, condenada a pagar com o sangue alheio a riqueza sempre esperada e nunca alcançada.

Outros olharam para o trabalho artístico para extrair dele um estudo não somente sobre a impossibilidade de se afastar da alma o desejo da vingança, como também um comentário sobre a fraqueza da honestidade humana.

Um dos ângulos a ser estudado parece-me refletir um paradoxo: a relativização moral tendo como fundamento o valor monetário e a sacralização dos costumes.

Quanto ao primeiro tópico, a questão prende-se em saber se com o dinheiro tudo pode ser comprado, inclusive a honra ou a vida alheia. A palavra “dinheiro” pode ser bem substituída por “poder”. Lembro-me de um episódio da nossa história, quando era discutida a revogação da pena de morte. Enquanto houver escravidão no Brasil, não se pode revogar a pena de morte, afirmação atribuída ao então Senador Viveiros de Castro.

Quanto ao segundo tópico, a elevação dos hábitos e costumes locais ao patamar das leis, nos países de tradição românica, tende a contribuir para o esgarçamento das estruturas jurídicas e à instalação do arbítrio, seja para expulsar Clara da sua cidade, seja para condenar Schill à pena de morte, independentemente de lei ou de tribunal.

A peça e o filme são inesquecíveis tais como inesquecíveis são Dürenmatt e suas fantásticas histórias sobre a existência do homem moderno. Há quem acredita até hoje que a velha senhora continua visitando os homens. A multiplicidade de ângulos permite concluir que Dürenmatt profetizava, com grande acerto, que a velha senhora volta sempre a visitar seus amigos para cobrar dívidas do amor, que são, para ela, as únicas imprescritíveis.



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