Variedades

 
A Parede Branca
Autor(a): Sérgio Roxo da Fonseca

O menino não conseguia estudar naquela noite. Os marcianos haviam invadido o Rio e estavam matando as pessoas com suas armas elétricas. Eram seres esverdeados transportados por discos voadores que punham a correr os vivos e os mortos. Pelo menos é o que diziam. Deus que me livre e guarde. Prefiro a morte que um cheiro forte, pensava.

Atravessou o silêncio do corredor, envolvido em grande medo, passando pela capela para a sala do Padre Luís.

- Prates, o que houve? Você está branco como cera!

- Padre Luís, o Joel contou no recreio que os marcianos estão invadindo a terra e que vão matar tudo e todos que encontrarem. Disse que um disco voador desceu no Rio de Janeiro e os marcianos esverdeados estão apavorando as gentes.

O padre deitou seus olhos no menino assustado e depois desviou-os para a parede branca, como se estivesse vendo além dela.

- Prates, você, com certeza, acredita num só Deus que esparrama sua misericórdia sobre tudo que existe. Sobre os homens, sobre as mulheres, sobre as flores e até mesmo sobre os micróbios que, às vezes, podem ser esverdeados. Não é?

- É, respondeu o menino.

- Se isso é verdade – e é verdade – o seu Deus, o meu Deus é o Deus dos marcianos. O mundo é muito pequeno para um Deus tão grande razão pela qual deita sua bondade sobre todo o universo. Todos nós somos filhos de Deus. Inclusive os marcianos entendeu? É possível dizer que Deus não caiba numa palavra e com certeza em um número.

O olhar do Padre Luiz continuava perdido além da parede branca.

- Você entendeu mesmo?

- Entendi, padre.

-
Logo, Prates, se você é bom porque foi criado por Deus, por consequência os marcianos também são bons, se é que eles existem, no que não creio.

- Mas o Joel disse que eles desceram de um disco voador no Rio.

- Desceram nada, menino. Pura invenção para pôr medo nos outros. Vou falar com o Joel.

- Padre, não fala não. Vai dar treta. 

As palavras ouvidas há quase cinquenta anos atrás, permaneciam na memória do antigo interno. Ficava espantado com a atenção dispensada pelo Padre Luís, muito mais pelas profecias ecumênicas contidas nas suas visões. O Padre Luís era irmão de todos os homens e até mesmo dos marcianos, ainda quando não existissem. 

Subindo as suaves ladeiras do Monte Nebo, as palavras do Padre Luís cresciam na sua memória, pondo presente um passado que o acompanhou por toda a vida. 

Sentou-se num banco, vendo de longe a Terra Prometida. Ali Moisés tivera a última conversa com Deus para em seguida morrer, pagando com a vida a desobediência cometida no meio do deserto.

- Sofia, disse Prates, você leu ali o preceito da unidade? “Unus Deus, pater omnes, super omnes”?

- Li, respondeu Sofia.

- Só um Deus, pai de todos, acima de todos, inclusive dos marcianos esverdeados que assombravam a minha infância. Pai de todos, Sofia? Pai também do povo que vivia em Jericó na época em que Moisés, sentado aqui, conversava com Deus?

- Prates, você só pensa em coisa ruim!

- “There is only one thing in the world worse than being talked about, and that is not being talked about”, na linguagem de Wilde, o condenado. Moisés, que aqui morreu, recebeu ordens de enviar Josué para além do Jordão, invadir a Terra Prometida e matar todos os habitantes, sacrificando até os animais domésticos, menos as prostitutas que eram suas espiãs.

- Prates, prefiro ver e viver o presente, disse Sofia.

- Curioso, acrescentou, com o olhar atravessando a planície, tal como no passado havia testemunhado alguém atravessar as paredes, aqui os homens comandados por Josué, foram além do Jordão, levando a Arca da Aliança, para esmagar Jericó. Os homens de Moisés eram nômades e, mesmo assim, cumprindo ordem de seu Deus, esmagaram todas as pessoas que então viviam em uma cidade tão complexa que já conheciam a prostituição. Jericó não recebeu a proteção dispensada aos marcianos, segundo os textos sagrados.

- Não foi dispensada a Jericó o tratamento previsto para os marcianos, segundo o Padre Luís, lembrou Sofia.

-
A cidade foi aniquilada. 

- Talvez a questão seja outra, disse Sofia. Se os livros de hoje contém palavras de difícil tradução, muito mais complicada pode ter sido transpor a descrição traduzir a descrição da caminhada dos homens da areia no rumo da Terra Prometida. Um único erro léxico pode ter sido o instrumento de troca de um nome de morte por outro de vida. Como não há, até hoje, documentos da época para conferência, melhor será acreditar que o Deus dos marcianos também foi o Deus de Jericó da época de Josué. O episódio faz lembra Proust: ao descrever a tentativa de Swann entender a explicação da sonata de Vinteuril: “como uma obra de música pura não contém nenhuma dessas relações lógicas cuja alteração na linguagem denuncia a loucura, a loucura reconhecida numa sonata parecia algo de tão misterioso como a loucura de uma cachorra, a loucura de um cavalo, que no entanto se observam realmente”.

- Você quer dizer que tudo pode passar de um delírio do cronista?

- Pode ser como pode não ser.

- É possível, não posso negar. Especialmente porque não consigo enxergar até hoje além das paredes, como fazia o Padre Luís. Se ele estivesse aqui iria encontrar alguma espécie de claridade nessas palavras. Um desafio. Um verdadeiro desafio.

- Mas você acredita ainda que o Padre Luís via através das paredes.

- Não tenho certeza que ele visse através dos tijolos. Estou apenas convencido de que conseguia ver além dos corpos das pessoas vivas e mortas, o que me parece ser muito mais difícil do que enxergar além das paredes brancas.



Fonte: Cedido pelo autor
22/11/2012

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