Variedades

 
O tempo reconquistado
Autor(a): Sérgio Roxo da Fonseca

Frequentemente somos surpreendidos com a sensação de que estamos revivendo um momento morto pelo passado, como se fosse possível trazer do fundo da memória pessoas e coisas já não existentes. Não existentes? Perdoe-nos, não existentes no palco do que conhecemos pelo nome de realidade. Continuam existindo? Sim, num planeta ou num plano que somente nós temos a chave da porta de entrada. E da saída? Talvez, não.

 

Conhecemos a experiência de Proust que ao tomar chá de tília, acompanhado de um biscoito chamado “madalena”, foi jogado para o tempo perdido que dele exigiu a redescoberta. Escreveu um dos romances mais extensos sobre o tema.

 

É interessante lembrar que a nossa memória não está apenas submetida a nossa atividade racional. As sensações, muitas delas aparentemente irracionais, como o sabor de chá de tília com madalena, convertem-se inúmeras vezes em veículo para uma viagem ao passado. Mas o passado pode atravessar a barreira do seu futuro para estar presente agora?

 

Os nossos professores afirmavam que sim, tanto que um dos tempos verbais, o mais que perfeito, reflete a existência do futuro do passado: “tivera estudado mais teria passado de ano”. Teria? Talvez sim, talvez não. Mas ainda que o passado não tenha futuro, é possível falar dele no presente como se estivesse transmitindo a emoção de um olhar, talvez de um perfume ou até mesmo de um sabor que ainda não foi assassinado pelas armas do tempo. A expressão linguística do passado traz os fatos para o presente. E os seus perfumes, e os seus sons, e os seus sabores? Também. O passado assim tem uma espécie de futuro, ou seja, o presente.

 

Borges, em Outras Inquisições, argumenta que tanto o passado como o futuro estão agrilhoados no presente. Algo muito próximo da conclusão chegada por Eliot quando transforma o passado e o futuro em enormes rios que desaguam, todos dois, no presente. O passado e o futuro somente existem no presente.

 

Essas visões impõem a vontade de viver o passado e o futuro no presente com todos os seus detalhes para documentar um dia, uma hora, um segundo do que foi ou do que será historicamente vivido, dando concreção a uma existência.



Fonte: Cedido pelo autor
3/7/2013

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